Caos no universo, onde?
Se o caos é um conceito multifacetado que aparece em diversas áreas — da mitologia à ciência — sempre com a ideia central de ausência de ordem, estrutura ou equilíbrio, isso não seria um ponto de vista da própria ciência para diferenciar o que para ela é ordem, estrutura ou equilíbrio?
Li um artigo que traz a seguinte definição: "o caos não representa apenas desordem; ele também pode ser uma fonte de criatividade e novas ordens." (Cidesp)
Durante muito tempo, aprendi a chamar de “caos” tudo aquilo que escapava à nossa compreensão. Era como se o universo precisasse se encaixar nos limites da nossa lógica, nos moldes da nossa linguagem. Se não pudermos prever, controlar ou explicar, então constinui-se desordem. Essa visão também está enraizada, profundamente, em tradições como a de Gênesis 1.2 — “a terra era sem forma e vazia” — que revela um olhar antropocêntrico de que o mundo só ganha sentido quando é moldado à imagem da nossa ordem.
Mas hoje percebo o quanto essa leitura é limitada. O que chamamos de “caos” pode ser apenas complexidade não dominada, uma inteligência que não se curva à nossa lógica linear, uma comprexidade mal compreendida e fertil. Não é ausência de estrutura — é presença de uma estrutura que não nos pertence. E talvez nunca pertença. E tudo que não nos pertence, controlamos, dominamos, chamamos de caótico. Mas o universo não precisa de nossa arrogância de nomear tudo, nem da nossa aprovação para funcionar. Ele não pede licença para ser vasto, profundo, ordenado e interdependente.
A narrativa bíblica, ao nomear o estado primordial como “sem forma e vazio”, já estabelece uma hierarquia: o que não é compreensível ou útil ao humano é visto como carente, como algo a ser corrigido. Mas esse “sem forma e vazio” era apenas a plenitude não reconhecida. Talvez o “sem forma” fosse apenas forma não humana.
A arrogância de nomear tudo é, no fundo, uma tentativa de controle. Quem nomeia, acredita que domina. Mas o universo não se deixa dominar. Ele se revela a quem observa com humildade, não a quem impõe categorias.
Então, acredito que o verdadeiro caos não está no cosmos — está na nossa insistência em querer que tudo se dobre à nossa lógica. Quando deixamos de tentar controlar e passamos a contemplar, descubrimos que o universo não é caótico. Ele é livre. E talvez a sua liberdade é a forma mais elevada de ordem.
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