Aos ministros que estão cansados, confusos ou em crise

Durante muitos anos da minha vida, eu busquei entender quem é Deus. Comecei essa busca quando tinha 17 anos. Eu me senti chamado por Jesus e decidi estudar Teologia, que é o estudo sobre Deus e a fé cristã. Estudei por 8 anos em um seminário referência e faculdades para buscar a graduação em teologia e especializar-me em Ciências da Religião. Três anos após a conclusão do seminário de Teologia, em 2012, fui consagrado pastor, atuando como líder em congregações, só em 2014 comecei a liderar uma igreja.

No começo, eu estava muito animado. Queria ajudar as pessoas, ensinar sobre Deus e viver aquilo que eu acreditava. Mas, com o tempo, enfrentei situações muito difíceis. Algumas dores e problemas emocionais começaram a aparecer, e eu não sabia como lidar com tudo aquilo. Foi aí que procurei ajuda na psicanálise, que é uma jornada que me ajudou a entender muito dos sentimentos e pensamentos mais profundos.

Mas interrompi a jornada na Psicanálise e tive uma recaída. Entrei em depressão, chegando ao ponto de não conseguir mais pregar, nem cuidar das pessoas como antes. Recorri à ajuda de um psiquiatra. Durante as consultas eu era questionado pelo médico sobre o motivo pelo qual eu não poderia sair do ministério para buscar me cuidar de modo mais eficaz, longe do contexto do sofrimento psíquico. Havia domingos que eu não conseguia sair do Gabinete pastoral sem forças para subir ao púlpito. Sentia tremores ao passar pelo bairro onde ficava a igreja e todas as vezes quando entrava na rua onde ficava o templo meu coração parecia que ia explodir e ficava ofegante. Eu estava doente e precisava me cuidar clinicamente.

Resisti e não quis nem se quer considerar a opção. Sentia-me culpado só de pensar. Passei a tomar medicamentos para controlar o pânico, a ansiedade e a depressão. Mas não suportei por muito tempo. Colapsei. E dois anos depois decidi sair do ministério pastoral. Foi uma decisão muito difícil, mas necessária. 

Depois disso, comecei a repensar muitas coisas da minha vida. Comecei a olhar para minhas escolhas com mais calma, sem culpa. O sofrimento pelo qual passei me deu oportunidade para refletir sobre mim, minhas crenças e valores e decidi mudar. Com o tempo, percebi que minha forma de acreditar em Deus também mudou. Tornou-se também mais simples. Hoje, eu me considero deísta — isso quer dizer que acredito em Deus, mas não sigo uma religião específica nem participo de igrejas.

Eu sou deísta porque acredito em Deus como o criador do universo, mas não acho que Ele interfere nas nossas vidas. Para mim, Deus criou tudo e deixou funcionando sozinho de modo perfeito. Minha concepção sobre Jesus também sofreu mudanças. O meu respeito por Jesus é o mesmo, mas o vejo como um grande professor de moral, cuja mensagem nos salva trazendo luz sobre a ignorância. Também vejo a Bíblia como um livro importante da história, cheio de ensinamentos e relatos escritos por homens que tentaram explicar os mistérios de sua época. 
Eu sou deísta. Isso quer dizer que eu acredito em Deus como o criador do universo, mas não acho que Ele interfere nas nossas vidas ou faz milagres. Para mim, Deus criou tudo e deixou funcionando sozinho, como um relógio bem feito.

Eu respeito Jesus como um grande professor de moral, mas não acredito que ele seja Deus ou que tenha vindo para nos salvar. Também vejo a Bíblia como um livro importante da história, cheio de ensinamentos, mas não acho que foi escrito por Deus.

Não acredito em pecado como algo que ofende Deus, mas sim como atitudes erradas que prejudicam a mim e aos outros. Céu e inferno não são lugares reais para mim. E o que importa é viver com ética, fazer o bem e usar a razão para construir um mundo melhor. Nesse sentido, a salvação, para mim, vem de viver com ética, pensar com clareza e fazer o bem.

Não me culpo mais por pensar diferente. Entendi que cada pessoa tem seu caminho e, para chegar até aqui, o meu me levou por uma jornada de fé, dor, cura e transformação. E tudo isso faz parte de quem eu sou hoje. 

Obviamente cada um tem a sua jornada. Subjetivamente observamos a vida a partir de nossas próprias experiências e isso define nossas escolhas e a direção dos nossos passos. Mas ainda gostaria de me dirigir aos homens e mulheres do ministério religioso que estão cansados, confusos ou em crise:

Se você está lendo isso e sente que algo dentro de você está em conflito — entre o que vive e o que acredita, entre o que esperam de você e o que você realmente deseja — quero lhe dizer: você não está sozinho.

Eu também fui pastor. Vivi intensamente minha fé, estudei Teologia por muitos anos, servi com dedicação e amor. Mas, com o tempo, comecei a sentir que algo não estava bem. As pressões, as dores não resolvidas, as expectativas que me cercavam… tudo isso foi se acumulando até que meu corpo e minha mente disseram: “basta”.

Tentei resistir. Busquei ajuda. A psicanálise me acolheu quando eu já não conseguia mais me acolher. Busquei ajuda psiquiátrica. E foi nesse processo que comecei a me perguntar: essa jornada que estou trilhando é minha? Ou estou apenas seguindo um caminho que foi escolhido por mim lá atrás? Estou vivendo a minha vida ou a que foi moldada para mim de modo inconsciente? O que realmente faz sentido para mim? E o que já não faz mais sentido?

Essas perguntas causaram dores. Incomodaram bastante. Mas também foram cruciais para me libertarem do que não era eu.

Se você, ministro ou ministra, sente que está vivendo uma vida que já não te representa mais, ou se o peso do ministério está te esmagando ao ponto de você não conseguir mais respirar com leveza, talvez seja hora de parar, a fim de se escutar e se cuidar. Não é um convite para desistir da vida, mas para reencontrar a que lhe é própria.

Não há vergonha em mudar de rota. Não há pecado em dizer “isso não faz mais sentido para mim”. O Evangelho que conhecemos fala de verdade, de liberdade, de vida plena. E isso começa dentro de nós.

Seja honesto consigo mesmo. Questione com coragem. E se for preciso, desça do púlpito para cuidar do homem ou da mulher que está por trás do título. Você é mais do que um cargo. Você é uma pessoa. E sua saúde emocional, sua paz interior, sua autenticidade — tudo isso importa.

Hoje, eu sigo outro caminho. Me tornei deísta. Não participo mais de comunidades evangélicas, e não me culpo por isso. Porque sei que minha busca por Deus continua — mas agora, de um lugar mais honesto, mais meu. 

Que fique claro: esse pode não ser o mesmo caminho que lhe seja apropriado. Quero dizer que você pode até continuar no ministério, porém que seja de modo mais honesto para com você.

Se sente que precisa mudar, mude. Se sente que precisa parar, pare. Se sente que precisa se reinventar, vá em frente. Deus não se ofende com quem busca a verdade com sinceridade.

Uma coisa é certa: todos precisamos viver uma vida que faça sentido para nós em nossa jornada pessoa. O que você está vivendo, faz sentido para você?

Com respeito e empatia,
Alguém que está buscando trilhar o caminho que lhe faz sentido.

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