A loucura como caminho da Sabedoria
Quando penso na forma como a religião e a filosofia foram usadas ao longo da história, não consigo evitar uma sensação de estranheza. Muitas vezes, em vez de libertar as pessoas, elas acabaram servindo como correntes invisíveis. O que deveria ser um caminho para a verdade e para a paz transformou-se em um instrumento de poder, medo e obediência cega.
O que mais me chama atenção é como o saber foi tratado como inimigo. Quantos pensadores foram perseguidos apenas por ousarem questionar? Quantos foram chamados de loucos ou hereges por não aceitarem explicações prontas? Éramos relatou sobre um tempo em que até a busca pelo conhecimento foi vista como uma espécie de desvio, quase um pecado. Parece que, em muitos momentos, a loucura foi mais próxima da verdade do que a chamada sabedoria oficial. Isso me faz refletir: será que não é justamente o ato de duvidar, de perguntar, de desconfiar, que nos aproxima da liberdade?
A religião institucional muitas vezes ensinou que sofrer é virtude, que buscar prazer é pecado, que estudar é perigoso: "Cuidado! A ciência mata". Isso soa como uma inversão absurda. Em outro trecho, o autor ironiza essa postura ao dizer que “a loucura cristã é a mais louca de todas as loucuras”, porque nela se despreza a vida, o prazer e até o conhecimento, como se apenas a dor fosse digna do céu. Se o mundo está cheio de beleza, de alegria e de mistério, por que transformar tudo isso em culpa? Por que ensinar que viver bem é errado e que a dor é a única porta para a salvação? Essa lógica me parece mais uma forma de controle do que um caminho espiritual.
Também me incomoda ver líderes religiosos que pregam humildade, mas vivem muito longe dela. Em um dos trechos de sua obra, Erasmo não esconde a crítica direta: “os cardeais desejam ser considerados como deuses, e não como homens”. São indivíduos que falam em servir, mas exigem ser servidos. Falam em simplicidade, mas se cercam de luxo. Essa contradição não é apenas hipocrisia; é um sinal de que o discurso religioso pode ser usado como máscara para interesses humanos. E quando isso acontece, a religião deixa de ser um meio de encontro e se torna uma ferramenta de dominação.
Mas não é só a religião que cai nesse erro. A filosofia também pode se perder em labirintos de palavras, em debates intermináveis que parecem mais jogos de vaidade do que busca sincera pela verdade. Como ironiza o autor em outro momento: “a ciência era um jogo de palavras, e a lógica uma simples dependência da gramática”. Para mim, pensar deveria ser o contrário: tornar claro o que é difícil, iluminar o que está escondido.
O que realmente importa, no fim, é a liberdade de pensar. A capacidade de olhar para o mundo com curiosidade, sem medo de perguntar. A coragem de desconfiar das respostas prontas, mesmo que venham de autoridades respeitadas. A ousadia de viver sem se deixar aprisionar por dogmas.
Se há algo que aprendi lendo Erasmo de Rotterdam, em O Elogio da Locura, é que a verdade não está em repetir fórmulas, mas em buscar com sinceridade. Não está em obedecer sem questionar, mas em duvidar com honestidade. Não está em se deixar dominar pelo medo, mas em viver com consciência. E se isso parecer loucura para alguns, talvez seja justamente essa “loucura” que nos aproxima da sabedoria.
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