A Loucura como dádiva natural que sustenta a vida humana diante da dor e da finitude

Nas minhas leituras da obra O Elogio da Loucura, percebo que Erasmo revela algo essencial sobre a condição humana: vivemos entre ilusões e verdades, e é justamente essa mistura que torna a vida suportável. A Loucura, que fala em primeira pessoa, mostra que sem ela o mundo seria insuportável. E eu não vejo nisso um defeito, mas uma forma de sabedoria que nos foi dada para que possamos continuar vivendo.  

Quando Erasmo compara a vida a uma peça de teatro, dizendo: “Se alguém se aproximasse de um cómico mascarado [...] e tentasse arrancar-lhe a máscara, não perturbaria assim toda a cena?”, entendo que a máscara é necessária. A ilusão não é engano, mas parte da ordem da vida. Se tudo fosse revelado cruamente, não haveria beleza, nem coragem para seguir em frente.  

Outro trecho que me toca é quando ele afirma: “Os homens não vivem muito tempo, mas vivem como se fossem eternos.” Essa frase mostra que a Loucura nos dá a capacidade de esquecer a morte e acreditar que temos tempo. Sem essa ilusão, ninguém se apaixonaria, construiria uma casa ou teria filhos. É como se a Loucura fosse uma força que nos protege do desespero.  

Erasmo também critica a arrogância humana: “pensa que só ele é tudo, o único rico da terra, o único sábio, o único livre.” Essa pretensão é ridícula. A comparação com o cachorro, que “não se envaidece, não se orgulha, não se irrita, não se vinga [...] está sempre pronto a servir, e nunca se queixa”, mostra que a simplicidade é mais nobre do que a vaidade. Para mim, isso revela que a grandeza não está em se colocar acima dos outros, mas em viver com humildade.  

Há ainda a reflexão sobre a busca pela verdade absoluta. Erasmo pergunta: “Se não se é feliz, como se pode ser sábio?” Essa pergunta desmonta a ideia de que a razão, sozinha, pode nos salvar. A felicidade não está em saber tudo, mas em viver bem, com alegria e amor.  

No fim, a Loucura nos lembra que a vida é cheia de dores: “Como é miserável, como é sórdido o nascimento! Como é penosa a educação! [...] Enfim não há prazer que não seja misturado com mil dores.” E é justamente por isso que precisamos dela. A Loucura nos dá coragem para rir, amar e seguir em frente, mesmo sabendo que somos mortais.  

Assim, vejo em Erasmo uma lição profunda: a Loucura não é um erro, mas uma dádiva. Sem ela, a vida seria apenas sofrimento. Com ela, podemos encontrar sentido, mesmo em meio ao caos.

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