A Prisão Invisível: Como o Superego Religioso Reprime a Autenticidade
Desde pequeno, aprendi que certas coisas eram “corretas” e outras “erradas”. Diziam-me que Deus estava sempre me observando, que eu devia obedecer meus pais e seguir os ensinamentos da Igreja sem questionar. No começo, eu achava que isso era normal. Com o tempo, comecei a sentir um medo estranho — como se qualquer ideia diferente que eu tivesse fosse um pecado.
Esse medo não vinha só dos adultos ao meu redor. Era como se tivesse uma voz dentro da minha cabeça, me julgando o tempo todo. Essa voz dizia: “Você não pode fazer isso”, “Você vai decepcionar seus pais”, “Deus vai se entristecer com você”. Mais tarde, descobri que essa voz tem nome: é o superego. O superego, segundo Freud, é a instância psíquica que internaliza normas, valores e proibições sociais — muitas vezes herdadas dos pais e da cultura. Quando esse superego é agressivo, ele não apenas orienta, mas reprime com intensidade, gerando culpa, vergonha e medo. É uma parte da nossa mente que guarda as regras que aprendemos desde criança. Quando ele é muito rígido e agressivo, pode nos fazer sentir culpa e vergonha até por coisas bobas.
A religião, na minha vida, ajudou a formar esse superego. Não estou dizendo que a fé é ruim — ela pode trazer conforto, esperança e valores importantes. Mas quando usada para controlar demais, ela vira uma prisão invisível. Eu tinha medo de pensar diferente, de querer coisas que não estavam nos “planos certos” da "Palavra de Deus", na mentalidade dos meus pais e da comunidade religiosa. Por exemplo, quando comecei a gostar de Rock gospel ou não gospel, ou quando comecei a questionar, mesmo que inaudível, algumas ideias que meus pais sempre repetiam, senti como se estivesse traindo tudo que me ensinaram.
Esse medo me impedia de ser eu mesmo. Eu não ousava ser diferente, não tolerava meus erros e com isso, aprender com meus próprios passos, era um desafio abismal. Era como se eu tivesse que seguir um roteiro que já estava escrito, sem espaço para improvisar. E o pior: eu achava que, se desobedecesse, seria castigado — não só pelos meus pais, mas por Deus. Eu, em minhas orações antes de dormir, pedia a Deus que não viesse à noite buscar a Igreja antes da minha oração para eu não ir para o inferno, essa era a minha oração diária. As superstições me dominavam, a culpa, o medo e a vergonha se apoderavam da minha mente e eu via Deus como um tirano pronto para me esmagar.
Com o tempo, percebi que viver assim me deixava triste e confuso. Aos quarenta anos, quando precisei buscar ajuda na psicanálise e comecei a conversar sobre isso em minhas análises pessoais, entendi que questionar não é pecado e que pensar por conta própria não é desrespeito. Eu compreendi que o Eterno, não dá a mínima para o que pensamos dele, e que isso só afeta a nós mesmos e nunca ele. O Eterno não quer que a gente viva com medo, mas com coragem e amor.
Hoje, ainda respeito meus pais e valorizo muitas das coisas que aprendi. Mas também aprendi a ouvir minha própria voz. A entender que o superego não precisa ser um inimigo, e sim um guia equilibrado. E que a religião pode ser uma fonte de luz, não de medo.
Se você sente esse tipo de pressão, saiba que não está sozinho. E que pensar diferente não é errado — é parte do seu crescimento. O mundo em que vivemos me ensinou que precisamos ousar sermos autênticos e íntegros para conosco, mesmo quando isso pareça difícil. Escolha ser você e não o outro. O mundo não precisa de pessoas iguais, ele se torna completo com pessoas que reconhecem sua subjetividade e a valorizam.
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