Sendo deísta, encontro fé nos mitos do Novo Testamento?
Sempre me disseram que fé era acreditar sem questionar, aceitar cada milagre da Bíblia como fato histórico. Mas, com o tempo, percebi que essa visão não fazia sentido para mim. Como deísta, acredito em um Criador que se revela na ordem da natureza, mas não interfere diretamente nos acontecimentos humanos. Isso não me afastou da espiritualidade; pelo contrário, me aproximou de uma forma mais livre e consciente de fé. E é nesse ponto que os mitos do Novo Testamento ganham força na minha vida.
Quando falo em mito, não estou dizendo “mentira”. O mito é uma linguagem simbólica, uma forma de traduzir o mistério em imagens que tocam a alma. O blog Metanoia fala muito disso: os mitos são a maneira mais poderosa que o ser humano encontrou para falar do indizível. E é exatamente assim que leio os milagres de Jesus. Eles não precisam ser fatos para serem verdadeiros em sentido.
A cura do cego, por exemplo, pode ser lida como despertar da consciência. A multiplicação dos pães é um convite à partilha e à generosidade. A ressurreição de Lázaro simboliza a possibilidade de recomeçar, de sair de uma vida sem propósito e encontrar novo sentido. Essas histórias funcionam como metáforas que iluminam a condição humana. Não importa se aconteceram literalmente; o que importa é o que despertam em mim.
Essa leitura simbólica me liberta do peso do superego religioso, que o Metanoia tantas vezes denuncia. Não preciso carregar a culpa de não acreditar em milagres como fatos. Posso, em vez disso, mergulhar no significado que eles carregam. Isso me dá uma fé mais leve, mais honesta, que não exige que eu desligue a razão para sentir o sagrado.
Minha fé se desenvolve em três movimentos. Primeiro, na reflexão: pergunto sempre o que cada narrativa quer me dizer sobre a vida. Segundo, na prática: tento viver os valores que esses mitos comunicam — compaixão, coragem, perdão. Terceiro, na contemplação: olho para a natureza e vejo nela a marca do Criador, entendendo que os mitos bíblicos são apenas uma das muitas tentativas humanas de traduzir essa grandeza.
O efeito disso é real. Essas narrativas me oferecem consolo em tempos de dor, me ajudam a organizar o caos da existência, me dão modelos éticos e me conectam a uma comunidade de buscadores. Não preciso acreditar que Jesus literalmente andou sobre as águas para sentir que posso enfrentar meus próprios mares revoltos. O mito cumpre sua função: dá sentido, fortalece, inspira.
Alguns podem pensar que uma fé sem milagres é fraca. Eu digo o contrário: é uma fé madura. É uma fé que não se apoia em provas, mas em significados. Que não se prende a dogmas, mas se abre ao mistério. Que não teme a dúvida, mas a acolhe como parte do caminho. Essa é a fé que escolhi viver — um fé livre e profundamente humana.
Comentários
Postar um comentário