Jesus foi apresentado de forma mitológica porque, no contexto cultural e religioso da época, essa era a linguagem mais poderosa para transmitir verdades espirituais e inspirar comunidades em meio à opressão e incerteza.
Quando penso em Jesus, vejo um homem que viveu em um tempo turbulento, sob o domínio romano, em uma região marcada por conflitos religiosos, desigualdade social e esperança messiânica. A Palestina do século I era um lugar onde o povo judeu aguardava ansiosamente por um libertador — alguém que restaurasse a justiça e devolvesse a dignidade ao seu povo. Nesse cenário, Jesus surge como uma figura que desafia autoridades, acolhe os marginalizados e prega uma ética radical baseada no amor e na misericórdia.
Esse é o Jesus histórico: um homem real, que caminhou entre pessoas comuns, ensinou por parábolas e foi executado por representar uma ameaça à ordem estabelecida. Os registros sobre ele, como os evangelhos, foram escritos décadas após sua morte, por comunidades que já o viam como muito mais do que um simples mestre. E é aí que entra o Jesus mitológico.
Naquela época, a tradição oral era o principal meio de preservar e transmitir histórias. E essas histórias não eram contadas com neutralidade ou objetividade. Elas eram carregadas de emoção, de esperança, de fé. As pessoas não queriam apenas lembrar o que Jesus disse — queriam sentir que ele ainda estava presente, que sua mensagem era viva. Para isso, recorreram à linguagem mitológica, que era comum tanto na cultura judaica quanto na helenística.
Na tradição judaica, já existiam figuras como Moisés, Elias e os profetas, cujas vidas eram narradas com elementos sobrenaturais. Na cultura greco-romana, deuses e semideuses morriam e ressuscitavam, realizavam milagres e ascendiam aos céus. Ao apresentar Jesus com essas mesmas características — nascimento virginal, milagres, ressurreição — os primeiros cristãos estavam dizendo: “Ele é mais do que um homem. Ele é o enviado de Deus.”
Mas isso não significa que tudo foi inventado. A linguagem mitológica não é mentira; é uma forma simbólica de expressar verdades profundas. Quando os evangelhos dizem que Jesus curou cegos ou multiplicou pães, talvez estejam dizendo, em termos simbólicos, que ele abriu os olhos das pessoas para uma nova forma de viver e que sua presença alimentava a alma de uma multidão faminta por sentido.
A mitologia, nesse caso, não serve para enganar, mas para elevar. Ela transforma a memória de um homem justo em um arquétipo universal. E isso tem poder. Porque, ao longo dos séculos, milhões de pessoas encontraram consolo, força e direção nas histórias sobre Jesus. Mesmo que não se acredite em cada detalhe literal, é possível reconhecer o valor dessas narrativas como expressão da busca humana por transcendência.
Como alguém que acredita em Deus, mas não segue religiões organizadas, eu prefiro olhar para Jesus com respeito pela sua humanidade. Ele não precisa de milagres para ser grande. Sua coragem, sua compaixão e sua sabedoria já o tornam digno de admiração. Mas também entendo por que as pessoas o envolveram em mitos: era a forma mais poderosa de manter viva sua presença, de afirmar que sua mensagem não morreu com ele.
Em resumo, o Jesus histórico é o homem que viveu e ensinou. O Jesus mitológico é o símbolo que transcende o tempo. Ambos coexistem, e cada um tem seu papel. Cabe a nós escolher como queremos nos relacionar com essa figura — com liberdade, com razão e com sensibilidade.
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