Libertação do controle da religião
Quando leio sobre Jesus expulsando demônios, não os imagino como monstros invisíveis ou seres externos que nos atacam. Para mim, eles representam linguagens do inconsciente: sintomas, lapsos, fantasias — expressões cifradas de conteúdos reprimidos que retornam e nos assombram. A chamada “linguagem demoníaca” pode ser compreendida como o retorno do recalcado — conteúdo psíquico reprimido, excluído da consciência, mas ativo no inconsciente, retornando disfarçado em sintomas, sonhos, lapsos, fantasias — uma fala que revela aquilo que tentamos silenciar, o que não conseguimos dizer de forma direta ou consciente. São manifestações neuróticas de mentes aprisionadas, cegas pela razão endurecida e incapazes de se abrir ao sentido mais profundo da vida.
O episódio narrado em Cafarnaum mostra um homem tomado por essa cegueira interior, manifestando-se justamente na sinagoga — lugar destinado à reflexão religiosa. Ali, o demônio simboliza uma espiritualidade morta, incapaz de auxiliar o sujeito a viver segundo as virtudes. O ensino de Jesus, ao contrário, traz ordem ao pensamento e ilumina a razão, mas essa luz perturba a desordem interior alimentada por um sistema religioso corrompido, que mantinha as pessoas presas ao medo, à culpa e à vergonha. Sentindo-se ameaçado, o homem se manifesta, revelando a resistência de quem estava aprisionado por estruturas religiosas manipuladoras. O extraordinário acontece quando, pela autoridade e sabedoria de Jesus, ocorre a libertação interior: o indivíduo deixa de ser controlado por forças que o mantinham cativo e encontra a possibilidade de viver em plenitude.
Essa narrativa me recorda que não estou condenado a permanecer escravo das minhas sombras ou das prisões que a religião pode impor. A fé, nesse contexto, revela-se como coragem: coragem de enfrentar aquilo que tenta me paralisar e confiança de que, usando minha consciência, posso ser livre. A verdadeira libertação não está em negar os conflitos internos, mas em escolher substituí-los por valores maiores — as virtudes presentes na vida e "no novo ensino" de Jesus: sabedoria, coragem, autocontrole, amor, compaixão e justiça.
Assim, a cura do endemoninhado em Cafarnaum não é um convite existencial. É o chamado para que eu reconheça meus próprios “demônios” — os medos, culpas e fantasias que me aprisionam — e permita que a luz da consciência e da fé me conduza constantemente à liberdade interior.
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