Mitos como linguagem do mistério: uma leitura deísta sobre Jesus e o cristianismo


Como deísta, acredito em uma inteligência criadora que rege o universo, mas não atribuo a essa força intervenções sobrenaturais ou milagrosas. Por isso, quando afirmo que os milagres de Jesus e sua ressurreição são mitos, não estou negando sua importância — estou reconhecendo que os mitos são linguagens simbólicas através das quais o mundo antigo buscava explicar os mistérios e ensinar o que, para eles, era insondável.

Na Antiguidade, o mito não era sinônimo de mentira. Era uma forma de traduzir o invisível, o sagrado, o inexplicável. Era uma ponte entre o humano e o divino. E nesse contexto, Jesus emerge como uma figura profundamente simbólica. Ele viveu em um tempo de opressão romana, de expectativas messiânicas entre os judeus, e de intensa efervescência espiritual. Seus gestos — curas, exorcismos, multiplicações — podem ser vistos como expressões narrativas de esperança, não necessariamente como eventos sobrenaturais.

A ressurreição, por exemplo, é um mito poderoso. Ela comunica que a mensagem de Jesus não foi derrotada pela cruz. Ela transcende a morte, não como fato biológico, mas como afirmação teológica. E isso não é exclusivo do cristianismo: culturas antigas já falavam de deuses que morriam e renasciam, como Dionísio, Mitra ou Osíris. O cristianismo, ao se expandir, absorveu essas influências, moldando sua narrativa para dialogar com o imaginário religioso do mundo greco-romano.

Com o tempo, o cristianismo se institucionalizou. Passou de movimento marginal a religião oficial do Império Romano. Nesse processo, os mitos fundadores foram canonizados, dogmatizados e transformados em verdades absolutas. Mas isso não apaga sua origem simbólica. Pelo contrário: revela como os mitos são capazes de atravessar séculos, moldar civilizações e inspirar milhões.

Para mim, reconhecer os milagres e a ressurreição como mitos não diminui Jesus. Pelo contrário, o aproxima da humanidade. Ele se torna um mestre, um sábio, um símbolo de transformação. E os mitos que o cercam são testemunhos da busca humana por sentido, por transcendência, por comunhão com o mistério.

Essa é a beleza dos mitos: não precisam ser reais para serem simbolicamente verdadeiros.

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