O deísmo em o Elogio da Loucura


Ler O Elogio da Loucura é, para mim, um exercício de visão deísta. A personagem da Loucura não aparece como alguém que defende a irresponsabilidade, mas como a única voz honesta capaz de criticar o sistema religioso de sua época. 

No Deísmo, Deus é visto como um criador lógico, um arquiteto do universo que nos deu a razão para admirar e compreender as leis da natureza. Por isso, tudo o que atrapalha essa capacidade — como a superstição, o dogma cego ou rituais sem sentido — é um desvio. É exatamente aí que a Loucura de Erasmo entra em cena. 

Ela ironiza aqueles que acreditam que objetos mágicos, rezas decoradas ou regras sociais vazias podem garantir salvação. Essa crítica não se limita à Igreja do século XVI; é um ataque permanente contra a irracionalidade. Um deísta diria: “Se Deus é Razão, então a adoração deve ser racional. Observe a natureza, use sua mente e aja com ética.” Ao mostrar a incoerência da fé vazia, Erasmo não destrói Deus, mas aponta para a necessidade de uma fé mais autêntica e refletida. 

A sátira, nesse contexto, funciona como uma limpeza. A Loucura, com suas piadas afiadas sobre a hipocrisia de padres, monges e acadêmicos que complicam a religião em vez de vivê-la, abre espaço para que a essência verdadeira da fé — a ética simples e o uso da inteligência — floresça. Assim, a visão deísta não apenas combina com a sátira de Erasmo: ela a confirma. 

O alvo não é a fé em si, mas o seu uso descuidado e supersticioso. No fim, O Elogio da Loucura se revela como um manifesto em favor do pensamento independente. O leitor que lê Erasmo e entende o Deísmo descobre que a verdadeira sabedoria está em questionar regras ilógicas. A Loucura nos convida a usar a Razão que o Arquiteto nos deu. O legado da obra é claro: em vez de aceitar cegamente o que nos dizem, devemos ter a “loucura” de pensar por nós mesmos. É uma mensagem de empoderamento intelectual que se encaixa perfeitamente na crença deísta na divindade da Razão.

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