O Elogio da Loucura e a Crítica Atemporal
Continuo lendo o livro de Erasmo de Rotterdam, Elogio da Loucura, é uma obra que mistura humor, crítica e filosofia para mostrar como muitas práticas religiosas e políticas de sua época estavam cheias de exageros e hipocrisia. É claro que ele não queria apenas provocar risadas, mas também fazer o leitor pensar sobre a sociedade e sobre a forma como líderes e pregadores conduziam suas funções.
Um dos pontos mais fortes é a crítica aos sermões religiosos. Erasmo mostra que muitos pregadores começavam seus discursos com assuntos totalmente fora do tema, como falar do rio Nilo quando deveriam falar de caridade. Isso revela que, em vez de ensinar valores, eles estavam mais preocupados em parecer eruditos e impressionar pela retórica. O resultado era um discurso vazio, que não mudava a vida das pessoas. Essa crítica continua atual: muitas vezes, discursos religiosos ou políticos ainda são mais espetáculo do que conteúdo.
Erasmo critica o apego exagerado aos ornamentos religiosos, como mitras e anéis, mostrando que muitas vezes o valor simbólico serve apenas para esconder interesses materiais. Essa crítica pode ser relacionada aos pregadores coach atuais, que usam roupas de luxo e acessórios caros para transmitir autoridade e sucesso. Assim como os líderes religiosos do passado, eles mascaram vaidade e busca por riqueza com discursos de fé e prosperidade. O contraste entre aparência e essência revela a hipocrisia: em vez de humildade e espiritualidade, há ostentação e sedução pela imagem, desviando o foco da verdadeira mensagem.
Erasmo também fala dos príncipes e da corte. Ele compara o governante a um astro ou a um cometa: pode trazer benefícios ou destruição, dependendo de sua conduta. O problema é que muitos reis buscavam apenas agradar a todos, o que acabava em fracasso. Além disso, os cortesãos eram retratados como imitadores servis, que mudavam de comportamento conforme o monarca. Se o rei era tirano, todos se tornavam tiranos; se era libertino, todos se tornavam libertinos. Essa crítica mostra como o poder pode corromper não só quem governa, mas também quem vive ao redor dele.
Outro ponto importante é a denúncia da corrupção e da exploração do povo. Reis e nobres se divertiam em caçadas e jogos, enquanto vendiam cargos e criavam impostos injustos. Para disfarçar, usavam belas palavras e discursos sobre justiça, mas na prática apenas enriqueciam às custas dos mais pobres. Essa contradição entre aparência e realidade é um tema central do livro.
Por fim, Erasmo reflete sobre a morte e a futilidade da vida luxuosa. Ele descreve a rotina de um senhor que passa os dias em festas, jogos e prazeres, sem pensar que a morte é inevitável. Essa crítica mostra que viver apenas para o prazer imediato é viver mal, porque ignora a finitude da vida e a necessidade de virtude.
Em resumo, Elogio da Loucura é uma obra que usa ironia para revelar verdades sérias: a religião pode se perder em formalidades, o poder pode corromper, e a vida sem reflexão acaba vazia, a mensagem é clara: não se deixe enganar por discursos bonitos ou símbolos de poder. O que realmente importa é a sinceridade, a justiça e a consciência de que todos somos mortais.
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