A Violência Simbólica como Fundamento da ordem social


Quando leio João 3:16 — “Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito” — não consigo mais enxergar apenas uma mensagem de amor. Para mim, esse versículo revela algo maior: a autoridade absoluta do Pai sobre o Filho. A psicanálise, especialmente Freud, me ajudou a perceber que por trás dessa narrativa existe uma estrutura inconsciente marcada por desejo, renúncia e lei. É como na história de Abraão e Isaac: o pai disposto a sacrificar o filho, e o filho aceitando em silêncio carregar a lenha. Freud escreveu em Totem e Tabu que a civilização nasceu de um ato violento contra o pai primordial, e que a religião tenta reparar essa culpa. Mas aqui o movimento se inverte: é o pai que entrega o filho. O resultado, porém, é parecido — a violência familiar se torna fundadora da ordem simbólica.

O que mais me chama atenção é a renúncia. O desejo natural de se preservar é negado pelo Filho em favor da obediência ao Pai. Freud interpreta a religião como uma forma de sublimação, ou seja, canalizar impulsos humanos em valores e práticas aceitas pela sociedade. O sacrifício mostra que nenhum desejo individual pode se sobrepor à lei. Em O Futuro de uma Ilusão, Freud afirma que a religião obriga o indivíduo a renunciar às suas pulsões e a obedecer sem questionar. O Pai renuncia ao que é mais íntimo, e o Filho, ao aceitar, encarna o ideal do ego submisso ao superego. É uma verdadeira pedagogia da obediência.

Quando penso em Cristo, vejo uma repetição do gesto de Isaac, mas em escala universal. Isaac carrega a lenha, Cristo carrega a cruz. Isaac se submete ao Pai, Cristo se submete ao Pai e à lei cósmica da salvação. Freud chamaria isso de deslocamento: o drama familiar se transforma em drama coletivo. O inconsciente da família vira inconsciente da religião. A violência simbólica da família se eleva a mito fundador da ordem social.

Mas acredito que esse é apenas um dos modelos que a religião nos legou. Há também narrativas de misericórdia, de fraternidade e de perdão. Contudo, o modelo da obediência e do sacrifício foi o que mais marcou o imaginário da nossa sociedade. João 3:16, nesse sentido, não é só amor: é a encenação da autoridade do Pai, a pedagogia da renúncia e a legitimação da lei, mostrando como a cultura nasce da violência simbólica e da obediência absoluta.

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