O Poeta Invisível
O ônibus seguia seu caminho barulhento: motor roncando, freio chiando, conversas misturadas, notificações de celular. Era o som comum do meu dia em movimento. Pela porta de trás, entrou um jovem. Não trazia balas, não oferecia chicletes, não carregava fones de ouvido. Ele trazia versos.
Com timidez, pediu atenção passageiros. Sua voz não tinha a potência de um comunicador, era fraca, quase engolida pelo barulho ao redor. Ainda assim, começou:
“No meio do caminho tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
Tinha uma pedra
No meio do caminho tinha uma pedra
Nunca me esquecerei desse acontecimento
Na vida de minhas retinas tão fatigadas
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
Tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
No meio do caminho tinha uma pedra." Era Carlos Drummond de Andrade ecoando dentro do ônibus, mas ecoando baixinho, como se fosse um segredo. A cada verso, o jovem assobiava um padrão repetitivo, tentando dar ritmo à sua apresentação. O som se misturava ao motor, criando uma música improvisada, estranha e curiosa, que me fazia pensar qual o sentido disso.
Ele seguiu com outro poema, e o assobio voltava sempre, como se fosse parte inseparável da performance. Mas os passageiros eram indiferentes. O assobio fortalecia a indiferença, falando por mim. Alguns olhavam pela janela, outros mexiam no celular, outros ouviam música com seus fones. Ninguém parecia disposto a se deixar tocar pela poesia.
Ao final, o jovem respirou fundo, suspendendo os ombros e os arqueando, e disse com simplicidade: “Aqui me disperso e agradeço o apoio.” E, ao mesmo tempo em que falava, começou a aplaudir a si mesmo. As palmas solitárias ecoaram dentro do ônibus por bons segundos, misturando-se ao barulho do motor, como se fossem as últimas notas de sua apresentação.
A cena tinha algo de triste, mas também de corajoso. Dificilmente me colocaria numa situação assim. Mas cada uma é cada um. Com sua coragem, era como se dissesse: “Mesmo que ninguém me aplauda, eu celebro o que fiz.” E, de certo modo, aquele aplauso simultâneo à despedida foi mais forte do que qualquer plateia inteira.
O ônibus seguiu seu caminho, e o jovem desceu em um dos pontos do intinerário, levando consigo seus versos, seu assobio e sua despedida. Eu fiquei com a imagem dele na cabeça: um artista de voz fraca, ignorado por todos, mas que diante da indiferença escolheu se aplaudir.
E talvez seja isso que a poesia faz: insiste em existir num mundo onde não se ouve, nem se fala de poesia.
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