Sacrifício sem testemunha
Certa vez, voltando do trabalho, vivi uma cena que me marcou profundamente. Eram exatamente 15h15 em Salvador quando, passando por Itapuã, avistei duas mulheres ao pé de um monte que a comunidade chama de Monte Santo. Ali, muitas pessoas costumam se reunir para rezar e buscar forças espirituais. No entanto, o que me chamou atenção foi a intensidade da devoção dessas mulheres: estavam de joelhos sobre a areia escaldante, sob o sol forte, em uma temperatura extremamente elevada. Seus joelhos nus tocavam a areia quente, e seus corpos curvados revelavam um momento de oração fervorosa.
Como deísta, enxerguei aquela cena como um sacrifício. Freud talvez interpretasse como fruto de uma neurose, ligada à culpa e à superstição. Mas, independentemente da análise, eu sabia que aquelas mulheres tinham seus motivos. Muitas razões podem levar alguém a se comportar assim: medo de ser castigado, cumprimento de votos espirituais, busca de favores divinos, desejo de mudança diante de uma situação difícil, ou até mesmo um pedido de proteção contra perigos de morte.
A questão que surgiu dentro de mim foi: por que Deus exigiria de seus filhos um nível tão intenso de auto‑sacrifício? Será que o Eterno se satisfaz com esse tipo de prática? Essa reflexão me acompanhou porque, ao longo da história, diferentes tradições religiosas interpretaram o sofrimento como forma de aproximação do divino. Para alguns, o sacrifício físico é uma demonstração de fé; para outros, é apenas uma expressão cultural ou de ordem psicológica.
Eu não acredito que o Eterno exigiria esse tipo de sacrifício de seus filhos. Para mim, Deus não se satisfaz com o sofrimento físico, mas sim com a sinceridade do coração e a pureza da fé. O amor divino não se mede pela dor suportada, mas pela entrega espiritual e pela busca genuína de conexão. Vejo que muitas pessoas recorrem ao auto‑flagelo por tradição, medo ou desejo desesperado de mudança, mas penso que o verdadeiro valor está na confiança e na paz interior. O Eterno, sendo fonte inspiradora de vida e autocuidado, deseja proximidade, não sofrimento desnecessário e autodestrutivo.
Comentários
Postar um comentário