Sobre o Elogio da Loucura - Parte 4

E é por isso que continuo a falar, sem medo, sem vergonha, como convém à Loucura. Sim, sou eu mesma, a Loucura, que vos fala. E se achais estranho que eu me elogie tanto, saibam que ninguém me conhece melhor do que eu. Afinal, quem mais poderia descrever com tanta precisão os meus encantos, os meus efeitos, as minhas travessuras?

Neste trecho do livro, O Elogio da Loucura,  Erasmo escreveu como a loucura é tão importante para a vida humana. Muitos pensam que a sabedoria é o caminho para a felicidade, mas ele afirma, em nome da loucura: "são os loucos que vivem melhor". Para Erasmo, os sábios vivem preocupados, cheios de regras, tentando entender tudo, enquanto os loucos se divertem, amam, riem, dançam e aproveitam cada momento. Quem é mais feliz, afinal?

Ler O Elogio da Loucura é como ser desafiado a rir daquilo que normalmente nos causa angústia. Erasmo, ao dar voz à Loucura, nos obriga a encarar a vida com menos solenidade e mais ironia. E nos trechos que li, essa inversão de valores me fez pensar: será que não somos todos um pouco loucos por tentar ser tão racionais?

Retomando um dos trechos mais provocativos, sobre o qual escrevi no texto anterior, Erasmo compara a vida humana a uma peça de teatro: “Se alguém se aproximasse de um cómico mascarado [...] e tentasse arrancar-lhe a máscara para que os espectadores lhe vissem o rosto, não perturbaria assim toda a cena?” Essa metáfora mostra que a ilusão é parte essencial da existência. Tentar arrancar a máscara da vida — ou de Deus — é destruir a poesia que sustenta nosso sentido de mundo. A Loucura, nesse caso, é a guardiã da beleza que nasce da ilusão.

Esse trecho me fez lembrar do que Freud afirmou em seu texto O futuro de uma ilusão (1927). Freud via, por exemplo, a religião como uma ilusão necessária em certo sentido: embora fosse uma fantasia sem base racional, ela cumpria funções psíquicas e sociais importantes, como oferecer consolo diante da angústia e manter a coesão social.  

Outro trecho que me fez refletir profundamente é aquele em que Erasmo questiona a lógica da sabedoria: “Se não se é feliz, como se pode ser sábio? E se não se é sábio, como se pode ser estoico? E se não se é estoico, como se pode ser livre?” A Loucura desmonta a cadeia de raciocínios que sustentam a ideia de que sabedoria leva à liberdade. No fim, tudo parece um jogo de palavras que não garante felicidade alguma. E talvez seja melhor viver com menos lógica e mais leveza. Parafraseando Erasmo: Não saber nada é uma vida mais feliz.

Quando Erasmo expressa esse pensamento,  critica de modo feroz à arrogância humana. Erasmo descreve o homem que “se julga o único rico da terra, o único sábio, o único livre, numa palavra, pensa que só ele é tudo.” Essa pretensão é desmontada quando ele compara a pureza de um cachorro com a hipocrisia humana: “Não se envaidece, não se orgulha, não se irrita, não se vinga [...] está sempre pronto a servir, e nunca se queixa.” O animal, simples e sincero, parece mais digno de respeito do que muitos homens que se acham superiores.

A Loucura também aparece como consolo diante da morte. Ela nos distrai e ilude, embriadando-nos de esperança para que vivermos como se fôssemos eternos. “Os homens não vivem muito tempo, mas vivem como se fossem eternos.” Sem essa ilusão, talvez ninguém se casasse, tivesse filhos ou construísse coisa alguma. A Loucura nos dá coragem para viver, mesmo sabendo que tudo pode acabar a qualquer momento.

Por fim, há uma reflexão sobre os filósofos e os mestres. Eles dizem a verdade, e por isso são rejeitados. “Os mestres não sabem adular, e os príncipes não gostam de quem não sabe adular.” A verdade incomoda, fere, tira o conforto. E nesse mundo de aparências, quem ousa ser verdadeiro é visto como louco. Mas talvez a Loucura seja justamente isso: a coragem de dizer o que ninguém quer ouvir.

E então, como Erasmo repete com insistência: “Quem vive melhor? O sábio ou o louco?” Depois de ler esses trechos, começo a achar que a Loucura não é um defeito — é uma forma de resistência. Uma maneira de continuar rindo, amando e vivendo, mesmo quando tudo parece sem sentido.

Comentários

Postagens mais visitadas