Sobre o Elogio da Loucura - Texto 2


Vamos continuar falando sobre a ideia de que a vida sem a loucura seria simplesmente impossível. No texto anterior vimos que ela está bastante presente em nossas vidas, agora quero falar sobre como ela se mistura com a própria essência da humanidade.  

Erasmo me incentiva a olhar para os homens e mulheres ao meu redor e perceber que todos carregam dentro de si uma dose de loucura, até mesmo eu. Uns escondem melhor, outros deixam transparecer sem medo. Mas ninguém escapa. E é justamente isso que nos torna diferentes dos animais: não é apenas a razão que nos distingue, mas também a capacidade de sonhar, de imaginar, de se deixar levar por sentimentos que não têm explicação. É dessa loucura que ele está falando.

A razão, por si só, é limitada. Ela calcula, organiza, prevê. Mas ela não cria. Ela não ama. Ela não se arrisca. É por isso que tantas vezes vemos pessoas se queixando da própria razão, como se fosse um peso. Os que escondem a sua loucura questionam: “Por que fui dotado de razão?” Porque ovindo-a apenas, negando a loucura, a alma se fadiga. Essa pergunta mostra que, sem a loucura, a razão com um tempo se transforma em um peso preso aos nossos pés.

E não é difícil perceber como dois grandes tiranos dominam o coração humano: a cólera e a concupiscência. A raiva e o desejo. Quem nunca se deixou levar por eles? Quem nunca perdeu o controle diante de uma paixão ou de uma explosão de sentimentos? A razão tenta controlar, mas quase sempre falha. E eu penso: talvez não seja para controlar, mas para conviver. Talvez o segredo esteja em aceitar que somos feitos de razão e de loucura, e que uma não existe sem a outra.  

O amor, por exemplo, não precisa de muitas explicações: ele domina, transforma e conduz além da razão. Sua força é poderosa, irresistível, capaz de romper qualquer lógica humana. É loucura que nos arrebata, mas justamente nessa intensidade reside sua grandeza.

As mulheres também são retratadas nesses textos como portadoras de uma loucura especial. Não no sentido negativo, mas como aquelas que, com sua beleza, seus encantos e até suas vaidades, despertam nos homens sentimentos que a razão jamais conseguiria provocar. Perfumes, roupas, adornos, sorrisos — tudo isso não é apenas vaidade, mas uma forma de loucura que dá sentido ao amor e à convivência.  

E se olharmos para os prazeres da vida, veremos que todos eles nascem da loucura. Os banquetes, as festas, as músicas, as danças, os jogos — nada disso teria graça se fosse apenas racional. Quem iria se divertir em uma festa sem risos, sem exageros, sem brincadeiras? Erasmo nos ensina que a loucura é o tempero da vida. Sem ela, tudo seria insosso, sem cor, sem sabor.  

Por isso, quando continuo escrevendo, quero deixar claro: não estou defendendo uma vida sem limites, mas uma vida que reconhece a importância daquilo que não pode ser explicado. A loucura não é inimiga da sabedoria. Muitas vezes, ela é o caminho para se chegar até ela.

Comentários

Postagens mais visitadas