Conventos, repressão e o retorno do inconsciente
Os filmes de terror frequentemente exploram cenários religiosos, retratando freiras, padres e devotos em meio a eventos sobrenaturais. Essas narrativas não apenas evocam o medo do inexplicável, mas também revelam um terreno fértil para reflexões psicológicas. A vida conventual, marcada pela renúncia aos prazeres mundanos e pela dedicação exclusiva a Deus, constitui um espaço singular onde o inconsciente encontra formas peculiares de se manifestar. Do ponto de vista da psicanálise — especialmente nas obras de Sigmund Freud e Jacques Lacan — os conventos podem ser compreendidos como ambientes de intensa repressão de desejos, em que o conflito entre pulsão e devoção se traduz em experiências místicas, visões religiosas ou fenômenos interpretados como sobrenaturais.
Freud, em seus estudos sobre o inconsciente e a repressão, destacou que os desejos sexuais e pulsionais não desaparecem quando são negados. Pelo contrário, eles permanecem ativos no inconsciente e retornam sob formas disfarçadas, fenômeno que ele chamou de retorno do recalcado. No contexto conventual, onde o celibato e a renúncia são regras fundamentais, essa energia reprimida pode emergir em sintomas neuróticos, em experiências místicas ou em visões religiosas. Assim, relatos de freiras e padres que afirmavam ver santos, anjos ou mesmo demônios podem ser interpretados como manifestações simbólicas de desejos e conflitos internos que não encontraram espaço na consciência.
Outro conceito freudiano importante é o da sublimação. Trata-se da capacidade de transformar pulsões em atividades socialmente aceitas. Nos conventos, a energia libidinal reprimida frequentemente se canaliza em práticas religiosas intensas, como longas horas de oração, produção de arte sacra ou dedicação ao cuidado comunitário. Dessa forma, o desejo não desaparece, mas se converte em devoção e criatividade, mantendo sua força vital em outra direção.
Lacan, por sua vez, amplia essa discussão ao introduzir a ideia do Real. Para ele, o desejo nunca se extingue; ele é estrutural e sempre retorna, mesmo quando o sujeito tenta anulá-lo pela devoção. O Real é aquilo que não pode ser simbolizado, que escapa à linguagem e à ordem racional. No convento, esse Real pode se manifestar como experiências místicas intensas ou como fenômenos sobrenaturais, interpretados pelos religiosos como milagres ou possessões. O espaço conventual, ao tentar ser puro e afastado do mundo, acaba se tornando palco privilegiado para o surgimento do “estranho” (Unheimlich), conceito freudiano que designa o inquietante retorno do que deveria permanecer oculto.
Em síntese, os conventos revelam como a repressão intensa dos desejos não os elimina, mas os transforma. O inconsciente encontra caminhos para se expressar, seja em sintomas, em visões religiosas ou em narrativas sobrenaturais. A psicanálise nos ajuda a compreender que o sobrenatural, nesses contextos, pode ser lido como metáfora dos conflitos internos e da força inescapável do desejo humano.
Referências
- Freud, S. O Inconsciente (1915); O Estranho (1919).
- Freud, S. Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (1905).
- Lacan, J. O Seminário, Livro XI: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964).
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