Generosidade Silenciosa


No caminho para o trabalho, uma senhora se aproximou e começou a fazer um teatrinho com a mão dormente, como se quisesse despertar minha pena. Eu, com meus fones de ouvido, não escutava nada, só via a cena. Nas curvas do ônibus, ela parecia um mamulengo desengonçado, batendo a barriga no meu ombro como se fosse parte do espetáculo.  

Fiquei quieto, observando aquele show improvisado. Quando finalmente me levantei, ela não perdeu tempo: sentou-se no meu lugar e, para completar a performance, ainda pegou a bolsa da amiga com o tal braço dormente.  

Foi impossível não rir por dentro. Parecia que eu tinha assistido a uma peça de teatro popular, só que dentro do ônibus.  

E é aí que entra a minha generosidade: não em ceder ao teatro hipócrita, mas em não ser conivente com ele. Generosidade de verdade não é dar palco para encenação, é agir com sinceridade. É oferecer ajuda quando ela realmente se faz necessária, sem precisar de artifícios ou manipulações. A minha escolha foi não alimentar aquela farsa — e isso, paradoxalmente, foi o gesto mais honesto que eu poderia ter.

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