Perigo de Querer Ser "Santo" Demais
Quando eu tinha 17 anos, vivi uma experiência que marcou profundamente a minha vida, e durante os 23 anos seguintes. Certo dia, alguém disse que eu era discípulo de Jesus. Eu nunca tinha escutado isso antes, mesmo tendo crescido em um lar cristão muito rígido. Aquela frase soou como um chamado de amor e aceitação. Quem falou essas palavras tornou-se alvo inconsciente da minha transferência: associei aquela pessoa a uma figura materna, como se fosse minha mãe dizendo aquilo. Sem perceber, era um processo psíquico de desejo. Naquele momento, parecia que eu estava ouvindo a própria voz de Jesus, mas, na verdade, era a voz do meu desejo de ser amado e aceito por minha mãe.
Esse sentimento de aceitação foi tão intenso que se transformou em dívida, nascida da culpa por me perceber pecador. Isso me levou ao próximo estágio: acreditar que precisava compensar Jesus por esse amor, tentando ser perfeito como Deus é perfeito.
Essa busca pela perfeição se tornou uma dívida impossível de pagar. O superego religioso dentro de mim — aquela parte da mente que cobra e julga sem parar — colocou minha vida em um ciclo interminável: a ilusão de me sentir aceitável diante de Deus seguida pelo esmagamento da culpa de minhas falhas. Eu também me sentia inflado pelos padrões de perfeição da religião, de modo que minhas vontades e desejos não tinham mais espaço dentro de mim. Tudo em mim se voltava para agradar somente aquele Jesus que eu acreditava não me julgar, mas me amar. Com o tempo, essa culpa histérica me levou a uma espécie de dissociação. Passei a me ver como um dos discípulos de Jesus, meu ego inflou, e comecei a acreditar que havia recebido um chamado espiritual igual aos apóstolos da Bíblia.
Ao mesmo tempo, entrei em um grupo de discipulado que seguia os princípios do G12: ganhar almas, consolidá-las no discipulado e multiplicar discípulos. Ali, falava-se muito sobre a importância da santificação, da confissão auricular dos pecados e da necessidade de “matar o eu”. A ideia parecia bonita no papel: a morte do eu para se conectar com algo maior lembrava até a filosofia budista. Mas, na prática, tornou-se complicada. Passei a acreditar que espiritualidade significava ignorar minhas necessidades humanas. Quando orava, ficava de joelhos por horas e, mesmo sentindo dor, negava o sofrimento e deixava meu corpo pedir socorro sem atender. Eu acreditava que minha carne precisava ser subjugada a Deus para que eu pudesse evoluir espiritualmente. Achava que isso era prova de fé, mas, na verdade, era crueldade comigo mesmo — um comportamento masoquista não consciente.
Se meu corpo reclamava, eu entendia que meu “eu” ainda não estava morto. Então me forçava a continuar, mesmo quando tudo em mim pedia descanso. Cheguei a provocar distúrbios no sono, andando de um lado para o outro, orando em meu quarto de madrugada, para não deixar minha mente desconectada de Deus.
Na psicanálise, existe o conceito de “Superego”. Ele funciona como um coordenador rígido que dita regras e supervisiona comportamentos. Todos temos um, e ele é importante para nos manter dentro de limites. Mas quando nos entregamos a ideias radicais de anulação pessoal, damos poder demais a esse coordenador, transformando-o em um tirano interior. Foi isso que aconteceu comigo: o superego religioso me esmagava, me fazia acreditar que eu não merecia conforto, que eu precisava ser perfeito e sem falhas.
Eu não tolerava meus próprios pecados e, ao mesmo tempo, exigia dos outros um padrão impossível. Afirmava amar e compreender as fragilidades alheias, mas os conduzia da mesma forma que me conduzia: impondo-lhes o mesmo caminho de busca por uma perfeição inalcançável. Hoje percebo que aquela dor no joelho não era “foco em Deus”, mas eu me agredindo porque acreditava que não podia sentir. A espiritualidade que eu vivia era, na verdade, uma guerra devastadora dentro da minha própria cabeça.
É claro que buscar um coração puro, ser honesto e não viver preso a preocupações inúteis é algo bom. O problema começa quando interpretamos “matar o ego” como “odiar quem somos”. Se a sua religião ou filosofia pede para você ignorar sua dor, sentir-se culpado por ter desejos simples ou se punir apenas por vê-los passar pela mente, cuidado. Isso não é Deus falando com você; é a sua própria mente sendo agressiva.
A espiritualidade que vale a pena não é a que nos faz viver em dívida, mas a que nos ajuda a viver em paz.
Depois de muita terapia e psicanálise, entendi que a verdadeira espiritualidade não é sobre se destruir. Ela deve trazer paz, equilíbrio e aceitação. Você não precisa se anular para encontrar o sagrado. O caminho espiritual não é sobre ser perfeito, mas sobre aprender a ser humano com consciência, amor e compaixão.
Hoje consigo olhar para trás e perceber que aquele chamado que ouvi aos 17 anos não era uma ordem para ser perfeito, mas um reflexo do meu desejo de ser amado. O amor que senti foi real, mas a culpa que veio junto foi uma distorção da realidade, uma neurose. A espiritualidade que vale a pena não é a que nos faz viver em dívida, mas a que nos ajuda a viver em paz.
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