Era a neurose de um guerreiro
Depois de anos vivendo como se minha vida fosse uma guerra espiritual, cheguei à psicanálise carregando culpas e medos. Eu estava cansado de ouvir sobre ataques espirituais, batalhas espirituais, a necessidade de estar na linha de frente espiritual, manter constante vigilância espiritual, pisar na cabeça da serpente, destruir os planos do inimigo, erguer minha defesa espiritual e usar as armas espirituais, como a espada da fé, para resistir às setas malignas. Essa linguagem havia moldado meu inconsciente e fortalecido um Superego agressivo, que me punia sem descanso.
Na análise, percebi que o Superego não era um inimigo externo, mas uma parte de mim que precisava ser compreendida. Ao falar dos meus sonhos de perseguição e das culpas que carregava, comecei a enxergar que aquela voz severa podia ser questionada. A psicanálise me ensinou que eu não precisava obedecer cegamente às ordens internas de guerra. Aprendi a reconhecer quando o Superego estava sendo cruel e a criar espaço para o meu Ego respirar. Esse processo me trouxe alívio: a culpa deixou de ser uma sentença eterna e passou a ser algo que eu podia elaborar.
Enquanto isso, minha espiritualidade também se transformava. Eu já não conseguia mais acreditar em uma fé que me mantinha em combate constante. Foi então que encontrei o deísmo. Nele, descobri um Deus que não me cobrava estar em guerra, mas que se revelava na ordem do universo, na beleza da natureza, na racionalidade que sustenta a vida. O deísmo me libertou da paranoia das setas malignas e da obrigação de estar sempre na linha de frente espiritual. Ele me ofereceu paz, contemplação e gratidão.
Hoje, integro essas duas jornadas. A psicanálise me deu ferramentas para lidar com meu Superego agressivo; o deísmo me deu uma nova linguagem para viver a fé sem guerra. Juntos, eles me ensinaram que espiritualidade pode ser descanso, que consciência pode substituir paranoia, e que a maior vitória não é destruir o inimigo, mas reconciliar-se consigo mesmo.
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