A misericórdia divina na visão deísta
Quando pensamos na palavra misericórdia, sua etimologia nos remete ao sentido de ter um “coração voltado para o miserável”. Entendamos aqui o miserável como o infeliz. Em contraste, o próprio Criador é imutável, inabalável e — usando um neologismo — inafetável pela sua criação, numa perspectiva aristotélica. Já a existência humana, como todo ser criado, nas palavras de Luiz Felipe Pondé é atravessada pela fragilidade, pela finitude e pela impossibilidade de alcançar uma plenitude estável, pois "o homem é um animal insuficiente. Ele é mortal, vulnerável e dependente". (PONDÉ, 2021, p.12) Nesse sentido, o ser humano necessita de um coração voltado para sua miserabilidade, isto é, para sua condição de infelicidade.
No contexto do deísmo, essa ideia ganha um significado especial. Diferente das religiões que entendem misericórdia como perdão ou intervenção direta de Deus, o deísta vê a misericórdia como algo presente no próprio ato da criação. Deus, ao criar o universo, já demonstrou sua bondade ao estruturar o cosmos de forma ordenada e sustentável, capaz de sustentar a vida humana.
Esse gesto inicial pode ser compreendido como o momento em que o “coração” divino se voltou para a humanidade. Não se trata de um ato isolado, mas de uma condição permanente: o mundo foi criado com leis naturais que garantem equilíbrio e previsibilidade. Essas leis são como uma misericórdia indelével, pois permitem que a vida se mantenha e floresça. Além disso, o ser humano recebeu a capacidade de compreender essa ordem por meio da razão.
Para o deísta, isso é uma dádiva fundamental: não apenas vivemos em um cosmos organizado, mas também temos a inteligência para perceber sua harmonia e aprender a viver de acordo com ela. A razão, portanto, é uma expressão da misericórdia divina, porque nos dá acesso à verdade sem depender de revelações sobrenaturais. Thomas Paine, em A Era da Razão, reforça essa visão ao afirmar: “A criação é a verdadeira e eterna palavra de Deus” (PAINE, 2022, p.37). Essa frase mostra que, para o deísta, a misericórdia divina não está em milagres ou escrituras exclusivas, mas na própria natureza, que fala continuamente ao ser humano. O universo é o livro aberto de Deus, e a razão é o instrumento que nos permite lê-lo.
Assim, podemos dizer que a misericórdia divina, no deísmo, se manifesta em três dimensões:
1. No ato da criação de um cosmos apto à vida.
2. Na permanência das leis naturais que sustentam a existência.
3. Na capacidade humana de compreender essa ordem pela razão.
É uma misericórdia estrutural, universal e constante, que acompanha a humanidade desde o início e nunca se esgota.
Referência Bibliográfica
PAINE, Thomas. A era da razão. Tradução de Fábio Alberti. São Paulo: FARO EDITORIAL, 2022.
PONDÉ, Luiz Felipe. (In)felicidade para corajosos: exercícios filosóficos. São Paulo: Planeta, 2021.
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