Isaías: um profeta que não falou o que deveria?

Vou procurar acompanhar o raciocínio do texto anterior e ser cru e direto na análise entre 2 Crônicas 28 e Isaías 7–8.  

Sobre as diferenças gritantes, o destino de Judá na crise siro-efraimita: em 2 Crônicas 28:5–8, Judá é massacrado, perde milhares de soldados, mulheres e crianças são levadas cativas. Já em Isaías 7:7, o profeta afirma categoricamente que a coalizão não prevalecerá contra Judá: “Isto não subsistirá, nem acontecerá.”  

Contradição: um texto mostra derrota brutal, o outro promete livramento.  

Sobre o retrato de Acaz: em 2 Crônicas 28:1–4, Acaz é um dos piores reis, idólatra, sacrifica filhos, fecha o templo. Já em Isaías 7:10–12, Acaz é apenas descrito como incrédulo, hesitante em confiar em Deus, recusando pedir um sinal.  

Diferença: Crônicas pinta um vilão; Isaías mostra um homem fraco, mas não detalha sua depravação.  

Sobre os profetas envolvidos: em 2 Crônicas 28:9–15, Odede repreende Israel e exige libertação dos cativos. Já em Isaías 7:3–14, Isaías confronta Acaz e anuncia o sinal de Emanuel.  

Contradição indireta: dois relatos paralelos da mesma crise, mas com protagonistas diferentes e mensagens distintas.  

Sobre a aliança com a Assíria: em 2 Crônicas 28:16–21, Acaz paga tributo e se torna vassalo. Já em Isaías 8:5–8, o profeta denuncia a confiança na Assíria e prevê que ela será instrumento de juízo.  

Diferença: Crônicas descreve o fato histórico; Isaías interpreta como erro teológico.  

Sobre tensões irreconciliáveis: quando observamos a promessa de Isaías, em Isaías 7:7 lemos “não acontecerá”, mas em 2 Crônicas 28:5–8 vemos que ocorreu de fato: Judá foi derrotado. Além disso, em Isaías 7:13–14 há a promessa de preservação da dinastia davídica com o sinal de Emanuel; mas em 2 Crônicas 28:19 lemos sobre destruição militar imediata do reino de Acaz. Os personagens centrais são diferentes: Odede em Crônicas, Isaías em Isaías. Não há menção cruzada, como se fossem narrativas paralelas sem integração.  

Conclusão

2° Crônicas 28 é um relato histórico que não poupa Acaz: ele é ímpio, derrotado, humilhado. Já Isaías 7–8 é um texto profético que ignora os detalhes mais sombrios e insiste na promessa divina de preservação. O resultado é uma contradição frontal: um livro mostra Judá sendo esmagado, o outro garante que não seria.  

A forma usada para harmonizar seria teológica: dizer que Isaías falava da não destruição total da dinastia, enquanto Crônicas registrava as derrotas parciais. Mas, lido cru, sem teologia conciliadora, e de modo racional e crítico, como no deísmo, os textos se batem de frente sem nenhuma forma conciliatória e harmônica.  

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