Sobre uma certa "profecia" e algo mais...
Ao ler o trecho de A Era da Razão, de Thomas Paine, sobre Profecias no Livro de Isaías, fico impressionado com a clareza e coragem com que ele desmonta as bases das interpretações religiosas. Como deísta, Paine acredita em Deus como criador do universo, mas rejeita qualquer revelação sobrenatural contida em livros religiosos. Ele analisa a famosa profecia de Isaías — “uma virgem dará à luz um filho” — e mostra como ela foi distorcida para sustentar a doutrina cristã do nascimento virginal de Jesus.
O contexto original da profecia, como Paine revela, era político e imediato: Isaías falava ao rei Acaz, prometendo que seus inimigos seriam derrotados antes que uma criança nascesse e crescesse. Mas essa promessa não se cumpriu. Se observarmos o 2° livro das Crônicas 28, Acaz foi derrotado, Jerusalém saqueada, 120 mil pessoas foram mortas e milhares levadas prisioneiras.
Diante dessa falha, Isaías tenta corrigir sua falácia profética de forma quase teatral. No capítulo 8 de Isaías, versículo 3, ele diz: “Fui ter com a profetisa, ela concebeu e deu à luz um filho”. Ou seja, ele de maneira meticulosa articula uma saída com uma mulher — chamada de profetisa — que estava para ter um filho, apresentando-o como o sinal prometido. Isso soa como uma tentativa desesperada de salvar sua reputação. Afinal, não é difícil encontrar uma mulher grávida, e Isaías, como qualquer pessoa daquela época, sabia disso.
Essa manobra revela muito sobre o uso estratégico das profecias. Paine sugere que Isaías pode ter planejado tudo, conhecendo a mulher de antemão. Isso reforça a ideia de que os profetas não eram mais confiáveis do que os sacerdotes que vieram depois.
Em resumo, Paine desmonta a narrativa bíblica com lógica e coragem. Ele mostra que a profecia de Isaías não só falhou, como foi remendada de forma duvidosa. Essa crítica não nega Deus, mas liberta a fé da superstição. Isso me motiva a acreditar fortemente que a verdade divina está na ordem natural, muito para além de texto "sagrado", onde profecias podem e foram manipuladas por homens.
Thomas Paine vai além da crítica ao contexto original de Isaías e mostra como o evangelista Mateus força a aplicação dessa passagem ao nascimento de Jesus. Para Paine, o que Mateus faz é um exemplo claro de como textos antigos foram reinterpretados de maneira artificial para sustentar uma doutrina já estabelecida.
Qianto ao uso da profecia por Mateus, no evangelho de Mateus (1:22-23), o autor cita Isaías: “Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho, e ele será chamado Emanuel”. Mas Paine observa que Mateus descontextualiza uma profecia que, no contexto original, falava de um sinal imediato e não posterior para o rei Acaz — ligado a uma criança que nasceria naquela época — e a transporta séculos adiante, aplicando-a, forçosamente, a Jesus. Essa transposição, segundo Paine, não tem base lógica: Isaías não falava de um evento futuro distante, mas de uma circunstância política urgente.
Sobre a questão da tradução, Paine também destaca que a palavra hebraica usada em Isaías é almah, que significa “jovem mulher” e não necessariamente “virgem”. A versão grega da Septuaginta traduziu como parthenos (“virgem”), e foi essa o sentido que os tratutores bíblicos preferiram manter na tradução do evangelho de Mateus. Porém, para Paine, esse detalhe mostra como uma nuance linguística foi transformada em dogma teológico.
A crítica de Paine refere-se ao fato de que Mateus não apenas reinterpretou Isaías, mas o fez de forma deliberada para encaixar Jesus em moldes messiânicos. Ele vê nisso uma manipulação, pois uma profecia recomendada por Isaías que não se cumpriu e foi manipulada falha é, séculos depois, reapropriada por Mateus para legitimar uma narrativa religiosa conveniente ao período em que ele vivia.
O resultado é que a fé passa a se apoiar em textos humanos, cheios de ambiguidades e interesses, em vez de na razão, na observação honesta e rigorosa e numa descrição exata dos fatos.
A relação entre a interpretação de Mateus e o contexto cultural da época é fundamental para entender por que essa profecia foi usada de forma tão insistente pelo escritor do Evangelho. Thomas Paine observa que Mateus não apenas força Isaías a falar de Jesus, mas o faz dentro de um ambiente cultural saturado de mitos de nascimentos extraordinários.
Sobre o pano de fundo mitológico da época podemos destacar que, no mundo greco-romano, era comum a ideia de deuses que se relacionavam com mulheres humanas, gerando filhos semidivinos.
Os exemplos abundam, mas aqui estão alguns deles:
— Hércules, filho de Zeus e Alcmena;
— Perseu, nascido da união de Zeus com Danae;
— Alexandre, que em algumas tradições era visto como filho de um deus.
Detalhe importante: Esses heróis eram concebidos como figuras interventivas, destinados a salvar, libertar ou fundar algo grandioso.
Aqui estão os Doze Trabalhos de Hércules (O número 12 deixaremos para outro texto), que formam o ciclo mítico de suas façanhas heroicas:
1. Matar o Leão de Nemeia – animal de pele impenetrável; Hércules o estrangulou e usou sua pele como armadura.
2. Matar a Hidra de Lerna – serpente de várias cabeças; cada vez que uma era cortada, duas cresciam. Hércules contou com a ajuda de Iolau para cauterizar os pescoços.
3. Capturar a Corça de Cerínia – animal sagrado de Ártemis, com chifres de ouro e pés de bronze.
4. Capturar o Javali de Erimanto – um monstro que devastava a região; Hércules o prendeu vivo.
5. Limpar os Estábulos de Áugias – estábulos imensos e imundos; Hércules desviou rios para lavá-los em um só dia.
6. Matar as Aves do Lago Estínfalo – pássaros com penas metálicas que devoravam homens; Hércules as afugentou com um chocalho dado por Atena e as abateu com flechas.
7. Capturar o Touro de Creta – animal selvagem que aterrorizava a ilha.
8. Roubar as Éguas de Diomedes – cavalos alimentados com carne humana; Hércules os domou.
9. Obter o Cinto de Hipólita – rainha das Amazonas; após conflito, Hércules conseguiu o cinto.
10. Capturar os Bois de Gérion – gigante de três corpos; Hércules o derrotou e levou o rebanho.
11. Roubar as Maçãs do Jardim das Hespérides – frutos de ouro guardados por um dragão; Hércules contou com a ajuda de Atlas.
12. Capturar Cérbero – cão de três cabeças guardião do submundo; Hércules o trouxe vivo até Euristeu.
Simbolicamente, cada trabalho representa a vitória sobre forças caóticas, monstruosas ou impossíveis, reafirmando Hércules como herói civilizador e libertador.
Perseu é um dos grandes heróis da mitologia grega, e seus feitos são lembrados como atos de libertação e fundação de novas ordens. Aqui estão os principais:
Principais feitos de Perseu
- Decapitação da Medusa
- A mais célebre de suas façanhas. Com ajuda dos deuses (Hermes lhe deu sandálias aladas, Atena um escudo polido, Hades um capacete da invisibilidade), Perseu conseguiu decapitar a Medusa sem olhar diretamente para ela, usando o reflexo do escudo.
- A cabeça da Medusa tornou-se uma arma poderosa, capaz de petrificar inimigos.
- Salvamento de Andrômeda
- Andrômeda estava acorrentada a uma rocha como sacrifício a um monstro marinho. Perseu a libertou, derrotando o monstro, e depois se casou com ela.
- Esse ato reforça sua imagem como libertador e protetor.
- Fundação de linhagens reais
- Perseu e Andrômeda tiveram filhos que deram origem a dinastias importantes, incluindo os reis de Micenas.
- Assim, ele não apenas salvou, mas também fundou novas casas reais, perpetuando sua influência.
- Uso da cabeça da Medusa em batalhas
- Em várias ocasiões, Perseu utilizou a cabeça da Medusa para transformar inimigos em pedra, consolidando sua vitória e protegendo aliados.
Por isso, perseu é visto como o herói que intervém contra forças monstruosas e injustas, trazendo libertação e inaugurando novas ordens políticas e culturais.
Alexandre, o Grande, foi uma figura histórica que acabou sendo visto quase como um herói mítico, justamente por seus feitos extraordinários. Eis os principais:
Em suas conquistas militares, como Rei da Macedônia (336 a.C.), assumiu o trono após o assassinato de seu pai, Filipe II, realizou que, em apenas 13 anos, conquistou o Império Persa, o Egito e partes da Índia, criando um dos maiores impérios da Antiguidade. Venceu batalhas célebres como em Isso (333 a.C.) e Gaugamela (331 a.C.), derrotando Dario III da Pérsia. Seu império se estendia da Grécia até o vale do rio Indo, abrangendo três continentes.
Fundador e unificador, estabelecendo várias “Alexandrias”, sendo a mais famosa no Egito, que se tornou centro cultural e intelectual do mundo antigo. Difundiu a cultura helenística, promovendo a fusão entre elementos gregos, egípcios, persas e orientais, criando uma nova síntese cultural que perdurou por séculos. Além disso, foi econhecimento divino. Em algumas tradições, era considerado filho de Zeus, reforçando sua imagem de figura interventiva e quase mítica.
Em seu legado simbólico, Alexandre não apenas conquistou territórios, mas fundou uma visão de mundo universal, onde culturas diferentes podiam coexistir sob uma mesma ordem. Assim como Hércules e Perseu, ele foi visto como alguém destinado a intervir no destino humano — mas, em vez de derrotar monstros, sua missão foi unir povos e expandir civilização.
Voltando ao trabalho de Mateus no seu contexto cultural, Paine sugere que Mateus, ao aplicar Isaías a Jesus, está inserindo o nascimento de Cristo nesse imaginário cultural também.
O nascimento virginal não seria apenas uma profecia descontextualizada e mas forçosamente cumprida, como uma forma de colocar Jesus no mesmo patamar dos grandes heróis e semideuses conhecidos pelo público da época.
Assim, o evangelista cria uma ponte entre a tradição judaica e o imaginário helenístico, reforçando a ideia de que Jesus é uma figura divina nascida com um propósito também, neste caso, messiânico.
Para Paine, essa apropriação mostra como os evangelistas moldaram narrativas para atender às expectativas culturais e religiosas de seu público.
O nascimento virginal, longe de ser uma prova de revelação divina, com base no que já foi apresentado, é visto como uma construção literária que se encaixa em padrões mitológicos já familiares. Isso reforça a sua tese: a fé não deve se apoiar em textos humanos que manipulam símbolos e mitos, mas na razão e na observação da ordem natural.
Em resumo, Mateus não apenas reinterpretou Isaías, mas também dialogou com um imaginário cultural de nascimentos sobrenaturais, criando uma narrativa que soava convincente para seu público. Paine desmonta essa estratégia ao mostrar que ela não prova nada além da engenhosidade humana em adaptar mitos.
Assim, Paine conclui que Mateus não prova nada ao citar Isaías. Pelo contrário, expõe como a tradição cristã se construiu sobre interpretações forçadas, contraditórias e traduções duvidosas. Para o deísta, isso reforça a necessidade de libertar a fé da superstição e da autoridade dos livros religiosos, encontrando a verdade divina na própria natureza e na razão.
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