Simples assim


O sentimento que emerge em mim diante da promessa religiosa de um mundo redimido é o de perceber que se trata de uma utopia cuidadosamente construída. A narrativa da salvação, com sua promessa de paz plena e justiça absoluta, soa para mim como um horizonte inalcançável, sustentado mais pela necessidade humana de acreditar do que por qualquer evidência concreta. Por exemplo, a volta de Jesus, tantas vezes anunciada como certeza, revela-se para mim como uma linguagem mítica, uma metáfora de controle que mantém viva a chama da esperança em meu coração cansado de enfrentar a dureza da realidade.  

Essa expectativa de “novo céu e nova terra” funciona, para mim, como um mecanismo simbólico: alimenta a fé, mas também perpetua a ilusão de que haverá uma ruptura definitiva com o sofrimento e a injustiça. O peso desse sentimento é ambíguo — mistura o consolo de uma promessa com a frustração de perceber que talvez nunca se cumpra. No fundo, o que eu experimento é a consciência de que a paz plena e a salvação universal não passam de construções idealizadas, sustentadas por discursos que moldam a imaginação coletiva e mantêm a esperança como uma forma de sobrevivência espiritual.  

Concluo, porém, que não preciso recorrer a tais utopias para enfrentar a realidade. A razão, com sua clareza, e virtudes — como justiça, a coragem, a temperança e a sabedoria — são suficientes para me sustentar diante das adversidades. É nelas que encontro firmeza para aceitar o que não posso mudar, serenidade para suportar o inevitável e força para agir com dignidade. Assim, descubro que a verdadeira paz não está em promessas distantes, mas na prática consciente de viver com lucidez e virtude no presente.

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