Do teísmo ao deísmo
Cresci em um lar onde a religião não era apenas uma prática, mas uma disciplina rígida que moldava cada detalhe da nossa vida. Na igreja, eu e meus irmãos éramos posicionados como soldados em formação: meu pai e minha mãe sentavam nas extremidades do banco, e nós ficávamos cercados entre eles, sem espaço para distrações. Levantar durante o culto era impensável. O silêncio e a concentração eram obrigatórios até o fim.
O pastor, para meu pai, não era apenas um homem. Ele era um símbolo venerável, quase um totem moral. Tudo o que fazíamos precisava passar pelo filtro dessa figura. Meu pai nos dizia: “Antes de agir, pergunte se o pastor faria isso.” Assim, o pastor se tornava uma consciência externa, um padrão absoluto de conduta. Ao final dos cultos, meu pai sempre ficava conversando com ele, como se estivesse diante de uma autoridade sagrada. Em casa, a mesa do almoço virava uma extensão da igreja: tínhamos que repetir trechos da mensagem, citar referências bíblicas, responder de forma correta. Caso contrário, recebíamos outro sermão acompanhado de olhares severos. Até a música que ouvíamos era controlada, e ao sermos chamados pelo nome, tínhamos que correr e responder com prontidão, saudando-o como “senhor”.
Essa formação deixou marcas profundas. Hoje, depois de três anos na jornada do Deísmo, percebo o quanto ainda carrego esse peso. O Deísmo me trouxe liberdade: a possibilidade de reconhecer uma inteligência superior no universo sem depender de dogmas ou de figuras humanas como mediadores do sagrado. Posso contemplar a ordem natural, sentir gratidão pela vida e buscar valores éticos universais. Mas, ao mesmo tempo, sinto um vazio espiritual. É como se a ausência de uma figura concreta — como o pastor que meu pai venerava — deixasse um espaço aberto dentro de mim.
O conflito está justamente aí: antes, o sagrado tinha rosto e voz, estava encarnado em uma autoridade visível. Agora, no Deísmo, o sagrado é impessoal, presente nas leis da natureza e na razão. Troquei um símbolo concreto por uma ideia ampla, e isso às vezes parece abstrato demais.
Tenho aprendido que o caminho é reinterpretar. No Deísmo, o “pastor” não é mais uma pessoa, mas o próprio universo, que ensina silenciosamente através da ordem natural. Em vez de perguntar “o pastor faria isso?”, posso me perguntar: “Isso está em harmonia com a razão, com a justiça e com a ordem da vida?” Assim, transformo a disciplina rígida em uma busca consciente por equilíbrio e ética. O vazio começa a se preencher quando percebo que não preciso de um totem humano para me conectar ao sagrado: basta olhar para o cosmos e reconhecer nele a presença de uma inteligência superior que me inspira a viver com responsabilidade e liberdade.
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