Por que ser pastor?


Aos 19 anos, quando decidi ser pastor, eu não compreendia totalmente o que me movia. Hoje, aos quarenta e um, consigo olhar para trás e perceber que minha escolha estava carregada de significados inconscientes. Cresci em um ambiente onde o pastor era visto por meu pai como um símbolo venerável, quase um totem moral. Ele não era apenas um homem que pregava, mas a medida de todas as coisas. Meu pai nos ensinava a pensar e agir sempre perguntando: “O pastor faria isso?” O olhar que meu pai dirigia ao pastor era cheio de respeito e reverência, um olhar que eu nunca recebia. Para mim, sobrava o olhar rígido, crítico, que me fazia sentir insuficiente em tudo.

Na jornada psicanalítica, percebi que meu desejo inconsciente era ocupar esse lugar do pastor. Eu queria ser tudo aquilo que meu pai via nele, para finalmente receber o olhar de aprovação que me faltava. A busca por ser pastor a partir dos 19 anos foi, de certa forma, uma tentativa de escapar da rigidez e, ao mesmo tempo, buscar um caminho onde eu pudesse construir uma identidade capaz de aplacar a dor da culpa. A culpa de nunca ser bom o bastante, de nunca corresponder às expectativas do meu pai. Eu acreditava que, se me tornasse alguém digno como o pastor, poderia transformar o olhar severo de meu pai em um olhar de veneração.

Esse movimento revela a força do inconsciente: eu não queria apenas liberdade, queria reconhecimento. O pastor funcionava como uma projeção do ideal de ego do meu pai, e eu, movido pela força do meu proprio inconsciente, desejava encarnar esse ideal para conquistar amor e aceitação. O ato de escolher ser pastor foi também um ato de ruptura, mas carregado de ambivalência. Porque eu fugia da rigidez, mas levava comigo o desejo de ser visto como exemplar, como alguém que pudesse ocupar o lugar simbólico que meu pai reverenciava.

Hoje, compreendo que esse desejo estava enraizado na tentativa de reparar a sensação de insuficiência. A psicanalista Melanie Klein (1997, p. 15) nos ajuda a entender que, na relação com figuras parentais, a criança internaliza tanto objetos bons quanto objetos maus. O olhar rígido do meu pai se tornou um objeto interno persecutório, enquanto o olhar venerável dirigido ao pastor representava o objeto idealizado que eu queria introjetar. O psicanalista Winnicott (1990, p. 140) mostra como a ausência de um ambiente suficientemente acolhedor pode levar ao desenvolvimento de um falso self — e percebo que minha busca por ser pastor foi também uma tentativa de construir esse falso self, moldado para agradar ao meu pai. A forte influência do meu pai modelou a minha estrutura psíquica e Freud (1923, p. 32) já havia apontado que o superego nasce da internalização da autoridade paterna, e o meu se formou sob a sombra de um olhar severo, sempre exigente para comigo e com os outros, fazendo com que eu me apropriasse da ideia de ser um totem moral rígido, severo e numa posicao de poder, porque quem é reverenciado está acima de quem reverência. Eu não deseja ter apenas o olhar acolhedor e a admiração do meu pai, mas o respeito de um servo. Nunca tramei isso de modo consciente, pois o próprio Freud (1917, p. 143) lembra que “o Eu não é senhor em sua própria casa”, e essa afirmação ajuda a compreender que minha escolha de buscar o lugar do pastor não foi apenas racional, mas marcada por forças inconscientes que me empurravam para tentar reparar a dor da insuficiência diante do olhar do meu pai. Por fim, no pensamento de Lacan (1998, p. 828) acrescenta que o desejo do sujeito é estruturado pelo desejo do Outro. Isso explica o fato de eu haver desejado ser pastor para obter tudo aquilo aquilo que meu pai desejava no pastor e, finalmente, ser reconhecido por ele.

O pastor foi o espelho que eu queria ser, para que meu pai finalmente me olhasse com orgulho e reverência. Reconhecer isso hoje me permite compreender que minha escolha não foi espititual, mas profundamente marcada pela dinâmica inconsciente de buscar reparar o que na psicanalise é busca do sujeito: preencher a falta. No meu caso, a insuficiência e a dor de não ter recebido o olhar amoroso que eu tanto precisava e o desejo pela inversão do jogo de poder, foi a força motriz que me levou, inconscientemente, ao ministério pastoral.

Referências

FREUD, Sigmund. O ego e o id. In: Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1923.

FREUD, Sigmund. Uma dificuldade no caminho da psicanálise. In: Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1917.

KLEIN, Melanie. Notas sobre alguns mecanismos esquizóides. In: Desenvolvimento emocional primitivo. São Paulo: Martins Fontes, 1997.

LACAN, Jacques. Subversão do sujeito e dialética do desejo. In: Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.

WINNICOTT, Donald W. O conceito de falso self. In: O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1990.

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