Voltaire sobre a história dos reis judeus e os Paralipômenos


Quando li o texto de Voltaire sobre a história dos reis judeus e os Paralipômenos (1° e 2° das Crônicas), senti como se estivesse diante de um espelho que reflete a fragilidade humana. Ele mostra que, mesmo quando se afirma que Deus teria escrito a história de um povo, o que vemos são páginas cheias de guerras, traições e assassinatos. Para mim, isso revela algo importante: não é porque um livro se apresenta como sagrado que suas histórias deixam de ser humanas, cheias de erros e paixões.

Eu acredito em uma força superior, mas não consigo aceitar que essa força se ocupe em registrar cada detalhe da política ou das disputas sangrentas de reis. Se fosse assim, teríamos que admitir que o próprio divino se interessa por narrativas de vingança e poder, o que não combina com a ideia de uma ordem maior e justa. Voltaire ironiza isso ao dizer que, se o Espírito Santo escreveu tais histórias, escolheu um tema pouco edificante. E eu concordo: não é possível que o que há de mais elevado se resuma a uma lista de assassinatos.

O que me chama atenção é a comparação que ele faz entre os judeus e outros povos. Todos escreveram sua história, e os judeus também o fizeram. Mas se a história deles é marcada por contradições, como entre Reis e Paralipômenos, isso mostra que não existe uma narrativa perfeita. A verdade histórica sempre passa pelo olhar humano, sujeito a erros e disputas. Isso me faz pensar que o que realmente importa não é quem matou quem, mas o que podemos aprender sobre a condição humana: o desejo de poder, a fragilidade das instituições e a luta constante entre ambição e justiça.

Ao ler essas páginas, eu não sinto vontade de me prostrar diante de um alfaiate judeu, como Voltaire ironiza, só porque sua história seria escrita por Deus. Prefiro reconhecer que todos os povos, judeus, gregos ou romanos, carregam em si a mesma marca: a tentativa de dar sentido à própria existência. E esse sentido não vem de cronologias ou genealogias, mas da busca por algo maior que nos inspire a viver com dignidade.

Assim, para mim, o texto de Voltaire é um convite à reflexão: não devemos confundir o humano com o divino. A história dos reis judeus é apenas mais uma prova de que os homens, mesmo quando dizem agir em nome de Deus, continuam sendo homens — cheios de falhas, paixões e violência. O que realmente nos aproxima do divino não está nas páginas manchadas de sangue, mas na capacidade de pensar, questionar e buscar uma ordem superior que não se mistura com as disputas de poder.  

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