Era um papel que já não me cabia

Durante vinte anos eu carreguei o título de pastor, e por muito tempo acreditei que esse era o chamado que definia minha vida. Eu me dedicava ao ministério com disciplina, mas dentro de mim crescia um silêncio pesado, uma sensação de que estava me afastando daquilo que realmente sou. Carl Jung dizia que os sintomas emocionais e físicos são mensagens do inconsciente, sinais de que nos desviamos da nossa verdade interior. Eu vivi isso na pele: adoeci porque me distanciei de mim mesmo.  

A cada sermão, a cada aconselhamento, eu sentia que minha voz não era mais a minha. Era como se eu representasse um papel que já não me cabia. O processo de individuação, tão falado por Jung, me chamava sem que eu soubesse nomear. Adoecer foi, para mim, um chamado para retomar o caminho de me tornar inteiro, integrar luz e sombra, forças e fragilidades. Eu não estava sendo verdadeiro comigo, e o corpo e a alma começaram a cobrar esse preço.  

Na psicanálise contemporânea, Lacan reforça que negar o próprio desejo gera angústia. Eu neguei o meu desejo por anos, tentando corresponder às expectativas externas, tentando ser o pastor que todos esperavam. Mas dentro de mim havia uma outra verdade, uma outra vocação, que não se encaixava no púlpito. Essa negação me levou ao esgotamento, à tristeza profunda, ao vazio.  

Hoje compreendo que adoecer não foi apenas uma tragédia, mas também um convite. Um convite para me reconectar com minha essência, para lembrar quem eu sempre fui antes das funções e dos títulos. A cura emocional não veio de me tornar alguém novo, mas de aceitar quem eu sou, com minhas contradições e limites.  

Agora caminho em direção à autenticidade. Não renego os anos de ministério, mas reconheço que eles foram parte de um percurso que me ensinou sobre mim mesmo. A verdadeira saúde, percebo, está em viver de acordo com meus valores, em ouvir meu inconsciente e respeitar meus desejos. Desviar de quem eu sou me fez adoecer; reencontrar-me é o que me faz viver.

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