Existe uma perspectiva linertadora

Sabe quando a gente ouve por aí que precisa "engolir o choro", "dar a outra face" ou que até ter um pensamento mais ousado já é um pecado terrível? Parando para pensar de verdade, essas ideias que tentam vender como puro amor e bondade funcionam, na realidade, como um verdadeiro manual de tortura para a nossa cabeça. Existe uma perspectiva libertadora, muito parecida com o deísmo, que mostra o seguinte: se existe uma força criadora no universo, ela com certeza não criou a gente para viver sob o controle de regras pesadas e vigilância constante. Deus não quer que a gente se anule.

Um dos homens mais famoso da psicologia, Sigmund Freud, explica direitinho a raiz desse problema em dois livros geniais. Em "O Futuro de uma Ilusão", ele mostra que as religiões funcionam como um calmante que a humanidade inventou porque tem medo de se sentir sozinha e desamparada no mundo. É como se criássemos um "superpai" no céu para nos proteger. O grande problema é o preço cobrado por essa proteção: para ganhar esse colinho divino, o sistema exige que a gente se sinta um lixo, culpado e pecador por natureza. Acaba virando um negócio perfeito: cria-se a doença mental (a culpa e o medo) para depois vender o único remédio disponível (a salvação).

Já em "O Mal-estar na Civilização", Freud explica que, para viver em sociedade, todo mundo precisa controlar um pouco os seus instintos básicos, como o sexo e a agressividade. Só que as doutrinas religiosas pesam a mão de um jeito sufocante. Quando dizem para "negar a si mesmo" ou afirmam que "cobiçar em pensamento já é traição", elas constroem o que a psicanálise chama de um "Superego" cruel — um juiz dentro da nossa própria mente que nos vigia vinte e quatro horas por dia. Isso gera uma culpa inescapável, ansiedade crônica, TOC e uma vergonha terrível do próprio corpo e das nossas necessidades biológicas mais naturais.

Essa cobrança por uma pureza impossível não transforma ninguém em uma pessoa melhor; ela só adoece o mundo, destrói a autoestima e faz com que vítimas aceitem abusos e injustiças de braços cruzados, achando que o sofrimento é uma virtude. A verdadeira liberdade não tem nada a ver com implorar o perdão de um sistema punitivo. Espiritualmente e psicologicamente, a libertação real acontece quando a gente deixa de lado essa paranoia, assume o controle da própria história e aceita que nossos desejos, nossa raiva contra a injustiça e nossa sexualidade são partes incríveis, saudáveis e absolutamente normais da nossa humanidade.

Em conclusão, quando unimos a filosofia deísta e a psicanálise freudiana, percebemos que o maior erro das religiões tradicionais é tentar domesticar o ser humano através do medo de um inferno ou de um julgamento cósmico. Essa estrutura cria pessoas dependentes e psicologicamente fragilizadas. Portanto, libertar-se dessas amarras dogmáticas não significa se tornar alguém ruim, mas sim resgatar a nossa dignidade e o nosso potencial criativo. A verdadeira espiritualidade deve nos impulsionar para a vida, promovendo o pensamento crítico e o amor-próprio, e não a nossa completa anulação mental e emocional.

Referências Bibliográficas

FREUD, Sigmund. O futuro de uma ilusão (1927). Tradução de Renato Zwick. Porto Alegre: L&PM, 2010.

FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização (1930). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010

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