O passado é apenas uma referência

Durante esses dias em Fortaleza, percebi como o passado insiste em se apresentar diante de mim, mesmo quando meu desejo é viver plenamente o presente. Ao reencontrar familiares, senti que cada gesto, cada palavra, carregava uma memória cristalizada de quem eu fui. É como se a imagem que guardaram de mim tivesse se tornado uma moldura fixa, difícil de ser substituída pela pessoa que sou hoje. Essa experiência me fez refletir sobre o peso das lembranças e sobre como elas moldam a forma como os outros nos enxergam.

Eu não busquei o passado, mas ele veio até mim através das atitudes e olhares daqueles que me cercam. É como se cada um tivesse uma linguagem própria para lidar comigo, uma linguagem construída a partir das experiências que viveram ao meu lado. Essa linguagem, por vezes, tenta me aprisionar em um papel que já não corresponde ao meu ser atual, mas não consegue. O que sou hoje é mais forte do que fui um dia. Ainda assim, eu compreendo que não posso controlar a memória dos outros, apenas a forma como escolho me posicionar diante dela.

Minha história também carrega marcas profundas da religiosidade. Desde os meus dezoito anos, vivi intensamente a fé, e em 2012 fui consagrado pastor. Durante quase uma década, exerci o ministério com dedicação, até que, ao final de 2021, decidi encerrá-lo. Essa decisão foi parte de um processo de transformação pessoal, de busca por novos caminhos e de afirmação de uma identidade que não se limita ao papel que desempenhei na igreja. Ainda assim, percebo que muitos continuam a me ver muito fortemente a patir do pastor que fui, sem enxergar o homem que sou hoje. Claro, para isso, precisariam conviver com que sou hoje e passarem a construir uma imagem nova sobre mim.

O desafio é grande: afirmar minha identidade presente sem negar o que já foi vivido. Eu sei que mudei, que cresci, que me transformei. Mas sei também que essa transformação precisa ser mostrada com paciência, em gestos cotidianos, em atitudes que revelam quem sou agora. Estar aqui, neste mês de férias, me trouxe a consciência de que o passado não precisa ser um inimigo. Ele pode ser apenas uma referência, um ponto de partida. O que importa é que eu não me deixe aprisionar por ele. Eu escolho viver o presente, cultivar minha essência atual e permitir que, pouco a pouco, os outros percebam que há um novo eu diante deles.

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