Hoje, 3 de outubro de 2026, encerra-se oficialmente um dos ciclos mais importantes, complexos e transformadores da minha vida. Nesta data, após ter encaminhado uma carta formal solicitando minha exclusão da Ordem dos Pastores Batistas do Brasil, recebi a confirmação do meu desligamento. O que, para muitos, pode parecer apenas um procedimento administrativo, para mim representa o encerramento definitivo de uma trajetória que moldou minha identidade, minha fé, minha vocação e minha compreensão do mundo.
Meu afastamento do ministério pastoral ocorreu em 2022, por decisão própria, em meio a um profundo processo de adoecimento emocional e psicológico. As crises de ansiedade e pânico tornaram-se tão severas que a simples presença em ambientes eclesiásticos passou a desencadear sofrimento. O que antes era lugar de realização espiritual tornou-se um espaço associado à dor.
Durante esse período, experimentei algo que jamais imaginei viver: a solidão. Não apenas a solidão de quem sofre, mas a de quem sofre em silêncio dentro de um sistema que deveria ser capaz de perceber quando um de seus membros está quebrado. Não recebi acompanhamento, não recebi apoio pastoral e não recebi sequer uma ligação que demonstrasse interesse genuíno em compreender minha situação. Posteriormente, fui substituído no pastorado sem qualquer comunicação prévia, sem diálogo e sem consideração pelo contexto que eu estava vivendo.
Muitos poderão me julgar e dizer que eu deveria ter procurado ajuda. Talvez tenham razão. Porém, justamente a incapacidade de fazê-lo naquele momento revelou uma realidade que considero profundamente preocupante. Um pastor adoecido nem sempre consegue pedir socorro. Um pastor em sofrimento nem sempre consegue verbalizar sua dor. Minha incapacidade de buscar ajuda por mim mesmo acabou me proporcionando, posteriormente, a oportunidade de refletir e racionalizar sobre a deficiência estrutural em que a Ordem dos Pastores se encontra. Uma instituição voltada para pastores não deveria depender exclusivamente do pedido de ajuda para perceber a ausência prolongada, o adoecimento ou o desaparecimento gradual de seus próprios membros.
Essa experiência produziu em mim consequências muito mais profundas do que o simples afastamento de uma instituição. Ela provocou uma desconstrução intelectual e espiritual que atingiu os fundamentos da minha teologia. Muitas das ideias que serviram como pilares para a construção da minha compreensão da fé foram sendo questionadas à medida que eu confrontava a distância entre o discurso religioso e a experiência concreta da realidade.
Ao longo desses anos, percebi que não estava apenas abandonando um cargo ou uma filiação denominacional. Eu estava revisando toda a arquitetura conceitual que havia orientado minha vida por décadas. As certezas deram lugar às perguntas. Os dogmas deram lugar à investigação. As respostas prontas deram lugar à reflexão.
Não abandonei a crença em Deus. Entretanto, minha compreensão sobre Deus sofreu uma profunda transformação. Hoje, identifico-me muito mais com uma perspectiva deísta do que com o modelo teológico que um dia defendi dos púlpitos. Continuo acreditando na existência de uma inteligência suprema, de uma causa primeira da realidade e de uma racionalidade presente na ordem do universo. Contudo, já não consigo vincular essa compreensão às estruturas institucionais e às interpretações dogmáticas que outrora considerei indispensáveis.
Por isso, o desligamento oficial realizado hoje possui um significado simbólico imenso. Não é apenas o encerramento de um vínculo com uma organização. É o reconhecimento formal de uma jornada de desconstrução, sofrimento, reflexão e reconstrução pessoal.
Não escrevo estas palavras movido por amargura. Também não as escrevo para atacar pessoas específicas. Escrevo porque a honestidade comigo mesmo exige que eu reconheça tanto as contribuições quanto as feridas produzidas por essa caminhada.
Hoje termina uma história iniciada há muitos anos. A carta de solicitação de desligamento que enviei e a confirmação do meu desligamento recebida nesta data apenas oficializam algo que interiormente já havia acontecido há muito tempo.
Encerra-se um ciclo.
E, diante de mim, permanece aberta uma nova jornada, construída sobre a liberdade de pensar, a coragem de questionar, a dignidade de recomeçar e a busca sincera pela verdade, onde quer que ela possa ser encontrada. Hoje deixo para trás uma identidade que já não correspondia à minha realidade. Levo comigo apenas as lições, os aprendizados e a convicção de que nenhuma reconstrução autêntica acontece sem que antigas estruturas, um dia, precisem ruir.
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