Nada se perde; tudo apenas retorna à sua origem.
Já faz um tempo que eu preciso de altares, templos erguidos ou promessas de recompensas celestiais para olhar para a morte com serenidade. A minha não fé cobe mais em dogmas estreitos; ela cabe na imensidão silenciosa de um céu estrelado e na precisão implacável das leis que regem este mundo.
Quando olho para o ciclo da vida, para o corpo que um dia descansa e se entrega, não vejo castigo, maldição ou tragédia. Vejo a mais pura e bela justiça cósmica. A matéria que me emprestou forma — os ossos, o sangue, o pó que habito — não me pertence de verdade; é um empréstimo temporário da Grande Engrenagem. Devolver esse veículo à terra, permitindo que se reintegre ao solo que sustenta a vida, é acertar as contas com a natureza. É o retorno exato ao lugar de onde viemos, sem intermediários, sem o peso de um tribunal divino, apenas a harmonia fria, perfeita e justa de um sistema que se renova infinitamente.
Mas o que fomos além da carne? O que restou da centelha que pensou, sentiu e contemplou a própria existência? Para mim, o espírito não é um fantasma preso a memórias vãs, mas a própria consciência — a parcela de razão que o Grande Arquiteto permitiu que a matéria despertasse para admirar a sua obra. E quando a máquina biológica cessa, quando o último sopro se esvai, a consciência não se perde no nada absoluto; ela se desliga do receptor físico e retorna à fonte. O pensamento volta ao Eterno. A mente reencontra a matriz de inteligência infindável que projetou a ordem do universo.
Não temo o fim. Não busco subterfúgios místicos para me consolar da finitude. Saber que meu corpo nutrirá a terra e que minha consciência se dissolverá de volta na imensidão da Razão Suprema me traz uma paz profunda. Cumprido o meu tempo de contemplação neste plano, serei, enfim, parte de novo do silêncio e da perfeição do cosmos. Nada se perde; tudo apenas retorna à sua origem.
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